Iron Maiden
NO INÍCIO, APENAS UM GAROTO E SEU BAIXO
Nossa estória começa no início dos anos 70, na Inglaterra, quando um
garoto de quinze anos, chamado Steve Harris, desistiu de uma promissora carreira
como jogador de futebol pelo West Ham United. Também não andava muito
interessado na Leyton Country High Schooll, onde estudava na sua nativa
Leytonstone. Pouco depois de pendurar as chuteiras, Harris, como muitos e muitos
outros garotos de sua idade, acabou caindo de amores pelo rock: logo estava
curtindo os sons das maiores bandas da época como Yes, Black Sabbath, Deep
Purple, Jethro Tull, e duas de suas maiores influências: o Wishbone Ash
(primeira banda a ter dois guitarristas solo) e o UFO, onde as acrobacias de
palco do lunático baixista Pete Way seriam copiadas ponto a ponto. Mais tarde
Scorpions e Judas Priest também trariam uma considerável inspiração.
Seu colega de classe, um certo Dave Smith, tinha aprendido a tocar guitarra,
mas Steve gostava do som característico do baixo elétrico. Assim, pegou 40
libras juntadas com muita dificuldade e comprou uma cópia de um baixo Fender
Telecaster. Junto com Smith formou então seu primeiro grupo que batizou de
Influence, mas antes que tocassem seu primeiro show ao vivo, eles mudaram para
um nome mais evocativo, Gypsy Kiss. Nessa época, 1972, Steve resolveu deixar a
escola para sempre e seguir a carreira de músico. Antes que pudesse ganhar o
suficiente para se sustentar, como veria durante muito tempo, pegou diversos
pequenos empregos durante o dia para ter o prazer de tocar à noite. Então,
logo que deixou a escola, utilizou suas boas notas para conseguir um trabalho
como estagiário desenhista, ganhando a preciosa soma de 11 libras por semana.
Quando se cansou, passou para varredor de rua e uma série de empregos
temporários incluindo uma temporada de 3 dias como lixeiro. "Esse eu tive
que me livrar logo porque fiquei cheio de catar insetos que caiam pelo meu
pescoço" revelou Steve na primeira biografia oficial do grupo, Running
Free.
AS PRIMEIRAS APRESENTAÇÕES
Mas se a vida nos empregos não era lá essas coisas, musicalmente falando as
expectativas foram aumentando progressivamente, ao mesmo tempo em que ganhava
importante experiência. A primeira apresentação do Gypsy Kiss foi num show de
talentos no St. Nicholas Church Hall em Poplar. O promotor do evento era um cara
chamado Dave Beasley, mais conhecido como Dave Lights, que viria a ser uma
figura importante na vida do Iron Maiden, num futuro próximo. Claro que não
foi das melhores apresentações que se podia esperar. Numa das músicas, que
deveria começar com um solo de baixo, Steve se mostrou tão nervoso que errou
completamente, ao ponto de seus companheiros acharem que ele estava tentando
afinar o instrumento. Mas a apresentação foi bem recebida, constando que o
grupo ficou em segundo lugar no concurso.
Nos meses seguintes o Gypsy Kiss continuou fazendo alguns shows esporádicos,
tocando um set de músicas famosas como Paranoid (do Black Sabbath), All Right
Now (do Free), Smoke On The Water (Deep Purple), Blowing Free (do Wishbone Ash)
e até Neil Young (Southern Man). Também arriscavam algumas músicas próprias,
incluindo uma certa "Endless Pit", de autoria de Harris, que mais
tarde, se tornaria parte de "Innocent Exile".
Mas depois de sete apresentações, o Gypsy Kiss acabou e Steve resolveu entrar
para outra banda da região leste de Londres chamada Smiler. Nesta banda estavam
o baterista Doug Sampson, o vocalista Dennis Wilcock e os guitarristas Mick e
Tony Clee. Mick e Tony, oito anos mais velhos que Steve, eram os donos do show.
A banda fazia um som mais para o boogie, como o Savoy Brown, e conseguiram uma
série de apresentações através do circuito de bares da região, obtendo uma
fama pequena mas respeitável.
Para o jovem Steve a experiência foi considerável, mas estava fadada a ser
curta. A banda chegou a fazer uma versão balançada de Innocent Exile, mas
recusaram a tocar a primeira canção "verdadeira" de Harris, "Burning
Ambition" com a desculpa esfarrapada de que ela tinha "muitas
mudanças de andamento" e que - acreditem se quiserem - "parecia com
Genesis"(!).
NASCE UMA BANDA
Frustrado, Harris caiu fora do Smiler, decepcionado com aquela visão estreita e
preconceituosa e resolveu criar uma banda nova. Mesmo naqueles tempos iniciais
Steve já tinha uma idéia bem clara de como a banda devia ser. "Naquela
época eu já tinha escrito algumas músicas. Então eu sabia qual era meu
objetivo. Eu queria uma banda de rock pesado que preferiria tentar algumas
coisas diferentes, que experimentaria um pouco ao invés de ficar naquela de
três acordes que todo mundo fazia." Relembra ele. Steve escolheu o macabro
nome de Iron maiden para sua banda. Como muitas das músicas que escreveu, esta
foi inspirada num filme, O Homem da Máscara de Ferro, e se referia a um
instrumento de tortura, uma espécie de caixão, com espinhos afiados na parte
interna. Nessas alturas o repertório incluía algumas composições que
ficariam famosas anos depois: "Transylvania", "Innocent
Exile", "Burning Ambition" e o hino "Iron Maiden".
O recém batizado grupo estreou em maio de 1976, no clube Cart & Horses, em
Maryland Point, Stratford. O local era tão pequeno que a banda teve que usar o
banheiro como camarim. A primeira formação do Maiden tinha Ron Mathews na
bateria, Steve no baixo, Paul Day no vocal e Terry Rance e Dave Sullivan nas
guitarras. Não foi muito difícil para a banda arranjar apresentações em
clubes locais, já que o próprio Harris atuava como agente e cuidava dos
contratos, usando seus contatos e experiência adquirida durante sua temporada
com o Smiler. Mas muita água iria correr antes que conseguissem ganhar o
suficiente para encarar a vida como músicos profissionais.
Um dos maiores empecilhos nessa fase, além das dificuldades normais de ter que
competir com dezenas e dezenas de outras bandas iniciantes, foi a constante
troca de membros na formação do grupo. Isso iria continuar por muito tempo,
já que Harris, o eterno perfeccionista, era difícil de se satisfazer. E,
embora o primeiro Maiden tivesse sido bem recebido ao vivo, Harris estava longe
de sentir que tinha as pessoas certas. Para começar havia o problema dos
guitarristas: embora fossem bons nas bases, Rance e Sullivan não tinham muito
jeito para solos. Paul Day era outro problema, não no vocal, no que era muito
competente (mais tarde faria um certo sucesso no More), mas na sua falta de
energia ao vivo. Harris queria uma banda dinâmica e brilhante no palco.
EM BUSCA DA FORMAÇÃO PERFEITA
Assim, Steve mudou de vocalista chamando o antigo cantor do Smiler, Dan Wilcock,
que, por sua vez, trouxe a solução de terem um bom solista de guitarra: um
loirinho, jovem e talentoso que havia tocado com Wilcock no Warlock chamado Dave
Murray. Fizeram uma pequena audição e o cara caiu como uma luva no som que
Harris pretendia fazer. Isso faria do Maiden um sexteto, mas Rance e Sullivan
sentiram-se diminuídos com a inclusão de Murray e intimaram Harris a escolher
entre eles ou o novato. Steve, muito profissional, não teve dúvidas: ficava
com Murray. Sullivan e Rance caíram fora. Um certo Bob Sawyer foi chamado para
completar o time de guitarras.
Dave ficou uns seis meses com a banda, até ter uma briga feia com Wilcock
durante uma apresentação na Bridge House. Wilcock o despediu e Dave foi
juntar-se à banda Urchin, liderada por um velho amigo seu, um guitarrista
desconhecido mas muito bom chamado Adrian Smith. Bob Sawyer já tinha sido
descartado um pouco antes, pois vivia tentando ultrapassar Murray ao invés de
complementar seu som, sendo mais um rival do que um companheiro.
Com isso Steve ficou temporariamente desiludido com o conceito de dois
guitarras-solo, cheio das brigas de ego. Chamou o guitarrista Terry Wapram,
ex-Hooker, para ocupar o posto de Murray e, pela primeira e única vez,
contrataram um tecladista via anúncio na Melody Maker, Tony Moore. Nesse meio
tempo Ron Matthews saiu da banda e foi substituído por Barry Purkins. Essa
formação só durou uma apresentação. Teclados não se encaixavam bem no som
do Maiden da época e Moore caiu fora. O guitarrista Wapram acabou saindo
também pois insistia que só tocaria se tivessem teclados na banda.
Nessas alturas Harris sabia muito bem quem ele queria de volta: o veloz, preciso
e tranquilo Murray. Steve foi atrás dele com sua habitual determinação, até
encontra-lo num show do Urchin. Foi lá e conversou e conversou até convencer
Dave a voltar para o Maiden, deixando um Adrian Smith muito chateado.
Mal voltava à banda com Harris e nova crise bateu: Dan Wilcock disse que
"estava cheio" e pulou fora do Maiden bem em cima de uma
apresentação no Green Man Plumstead, o que deixou a banda furiosa. Com essa
baixa, Purkins resolveu sair também, deixando apenas Harris e Murray para
levantar a bandeira do Iron Maiden. Purkins, que atendia pelo apelido de
Thunderstick iria se juntar pouco depois ao Samson, um grupo que incluiria um
certo Bruce Dickinson nos vocais. Dava para acabar com qualquer um. Mas Harris
não era qualquer um e tratou de arrumar as pessoas que faltavam.
NEM SÓ DE SOM VIVE UMA BANDA
Aqui, antes de Wilcock desaparecer de cena, vale a pena destacar sua
contribuição para o futuro do Maiden. Nem tanto no vocal, mas sim numa outra
área muito importante para o sucesso posterior da banda: sua imagem.
Wilcock era um grande fã do Kiss e foi dele a idéia de usar um pouco de teatro
no palco para dar mais força às apresentações. Ele usava maquiagem vermelha
num dos olhos (muito parecida com a de Paul Stanley do Kiss), máscaras em
algumas músicas e fingia atacar Dave Murray para morder-lhe o pescoço durante
seus solos. Mas o ponto alto destas apresentações acontecia em "Iron
Maiden", quando ele passava um florete na boca e "cuspia" sangue
de cápsulas de tinta. O resto da banda ficou muito impressionado com o
resultado, principalmente quando duas garotas que estavam na fila da frente num
show em Margate desmaiaram ao verem a cena. Certamente esses truques ajudaram a
melhorar sua performance no palco.
Depois que Dan Wilcock saiu, Steve quis manter o elemento de teatro de horror na
banda, mas sem a necessidade de ter um cantor maluco para fazê-lo. Até então
o símbolo do Iron Maiden era um desenho de uma boca cuspindo sangue, bem
parecida com a famosa boca dos Rolling Stones. O desenho era baseado nas
performances de Wilcock.
A famosa figura do Eddie só apareceu bem depois, graças a um personagem
chamado Dave Lights. Dave era um velho conhecido de Harris, pois foi ele quem
organizou o concurso de bandas onde o Gypsy Kiss estreou. Mais tarde Lights
decidiu transformar um velho vicariato onde vivia num local para ensaios. Dave
acabou entrando para a estória do Maiden como responsável pelo show de luzes
da banda e, mais tarde, efeitos especiais, tais como fogos de artifício durante
as apresentações. O caráter de improvisação é bem demonstrado pelo número
de vezes que Steve e Dave Murray saíram queimados quando o sistema estourava.
Mas a criação mais famosa de Dave Lights aconteceu quando ele pegou o logotipo
da banda (desenhado pessoalmente por Steve Harris) e pintou-o de dourado,
colocando junto uma máscara facial (segundo consta, furtada de alguma escola de
arte). "Eu não sei quem é esse cara - Comentou Steve - Mas ele devia ser
feio!" Dave colocou lâmpadas em torno das beiradas e usou o compressor de
ar de um aquário para que a máscara cuspisse sangue durante a música
"Iron Maiden". A idéía da cabeça e da rima (em inglês: Eddie, the
Head) veio de uma piadinha infame de Dave Murray sobre um garotinho que tinha
nascido sem corpo.
A segunda cabeça de Eddie era um pouco maior e Dave Lights a construiu de fibra
de vidro e acrescentou olhos que acendiam, além de fumaça vermelha que saía
dela. Também o logotipo foi melhorado sendo bem maior e feito de pedaços de
vidro duramente construídos pelo senhor Lights. Tanto a cabeça de Eddie quanto
o logotipo podem ser vistos nas primeiras fotos promocionais da banda, e na
contracapa do primeiro LP. Eddie permaneceria sem corpo até a aparição do
desenhista Derek Riggs, bem mais tarde.
RETORNANDO PARA A BATALHA
Depois que Wilcock e Purkins saíram, Harris não desanimou e voltou à carga a
procura de pessoas que pudessem preencher as vagas da melhor forma possível.
Como resultado ele acabou entrando em contato com seu antigo baterista do
Smiler, Doug Sampson, e ensaiaram duramente por seis meses, enquanto buscavam
novo cantor. Eventualmente ele acabou chegando a Paul Di'Anno, uma figura de
Chingford, que era, sem dúvida o primeiro vocalista digno do nome até então.
Harris o conheceu através de um amigo de Paul, Trevor Searle, que ficou sabendo
que o Maiden precisava de novo cantor. Foi durante uma apresentação do Pink
Fairies no seu clube local, o Red Lion, antes de ser demolido. Curiosamente, o
cara que organizou aquela apresentação do Pink Fairies era um certo Rod
Smallwood, então agente do grupo.
Paul foi chamado para um teste e passou tranquilamente numa inspirada versão
para "Dealer" do Deep Purple. A lenda diz que Di'Anno impressionou a
banda com estórias que teria cantado em vários conjuntos, chegando a mais
tarde declarar para a imprensa que tinha estado até em bandas de Reggae e
coisas a fim. Essas declarações eram típicas mentirinhas que Paul faria
durante os anos seguintes para aumentar sua reputação, embora isso em nada
afetasse o fato dele ser um excelente cantor e uma figura carismática no palco,
perfeito para uma banda energética e carismática como o Maiden. Paul entrou no
final de 1978 bem na hora do Maiden estrear uma série de apresentações
triunfais num bar que faria sua fama e glória, o Ruskin Arms, na High Stree
North, Manor Park, East London.
O MARKETING DA ÉPOCA
O Maiden tinha um público certo, mas estava longe de ser a única grande banda
das redondezas. Havia muita rivalidade e a competição era foda. Steve então
achou interessante fazer muita propaganda, colocando anúncios em todos os
locais possíveis, que podiam variar desde um simples "Vocês não viram
nada ainda" até coisas mais elaboradas como "A única banda que vale
a pena ver... sangue, choque e rock", "Reis do rock do East End"
e por aí vai. A mais longa e interessante, além de original, veio depois de
seus seis meses de preparação quando colocaram no jornal Melody Maker essa
bomba, que traduzida livremente dizia mais ou menos assim:
"IRON MAIDEN não é apenas a de melhor visual, alta energia, original,
barulhenta mas talentosa, bonita, de bom gosto, apaixonante, batedora,
vampiresca, fazedora de cabeças, banda de hard rock de Londres! Nós somos
também muito bons rapazes, legais com nossos fãs e familiares, hostis para
outras bandas, mas antes de tudo nós somos sensacionais, grandes estrelas e
nós somos honestos e estamos de VOLTA!!!!!!! ENTÃO FÃS, GRAVADORAS, CAÇADORES DE TALENTO, AGENTES, PROMOTERS, CONTADORES E GAROTAS BONITAS
DISPONÍVEIS, FIQUEM DE OLHO NESSE ANÚNCIO PARA DETALHES!
Sim, eles sabiam voltar com estilo. O único problema é que muitas pessoas não
viam as coisas com tanto humor e vira e mexe havia gente de outras bandas que
vinha provoca-los ou coisa pior. Em pelo menos uma ocasião outra banda
arrebentou os portões do clube Cart & Horses e jogou cerveja em todos os
monitores da banda, resultando numa briga de proporções épicas.
TEMPOS DIFÍCEIS
Apesar do Maiden ter um público fiel e certo, a época não era para Heavy
Metal. De fato, o Punk rock começava a chamar a atenção da mídia e
empresários e já anunciado como a "nova tendência". Vale dizer aqui
que, nessa época, o pessoal do punk e do metal não se tocavam e viviam se
estranhando. Heavy Metal era coisa de “hippies cabeludos” e o som era tido
como “ultrapassado”, como pontuavam os críticos. Mas não dava para ignorar
totalmente um pessoal talentoso como o Maiden. Vários "olheiros"
apareciam e alguns empresários se aproximaram de Steve Harris & cia. para
um eventual contrato de gravação. Mas a estória era sempre a mesma: todos
ficavam impressionados com a energia e talento da banda, mas vinham com as
velhas propostas de "cortem os cabelos" ou "Façam algo mais
comercial". Uma empresária de Londres, dona de uma gravadora de Reggae(!)
chegou mesmo a sugerir que tocassem no Roxy (o templo do punks na época), com
um material mais pop, desistissem do cenário e das pirotecnias, cortassem o
cabelo e usassem toda a parnafernália punk (como alfinetes e penteados
arrepiados). Desnecessário dizer onde os membros da banda mandaram a
empresária.
Foi um período duro para pessoas como Steve Harris, determinado, inteligente e
consciente de sua musicalidade, ver suas chances de gravação e shows
desaparecerem diante da moda dos Punks e New Waves. Os membros do Maiden estavam
certos que fazer concessões à moda queimaria seu nome e nunca conseguiriam de
volta os fãs que tinham em sua região. Levantaram a bandeira do Heavy Metal
para quem quisesse seguir e foram adiante. O único interesse da época tinha
sido de um empresário belga que chegou a sugerir que a banda se mudasse para
aquele país onde poderiam gravar. Mas o pessoal do Maiden chegou à conclusão
que não valia a pena deixar seus fãs fiéis e sua localidade.
Enquanto isso o Maiden logo descobriu que estavam cada vez mais atraindo pessoas
de locais mais longínquos para vê-los tocar. Melhor: quando o Iron se
aventurou a se apresentar em clubes distantes, descobriram que os fãs vinham
atrás, não importando as dificuldades de transporte. E a banda, que nunca
ficou mascarada, sempre dava um jeito de dar uma carona para alguns que ficavam
sem jeito de voltar para casa.
Quando o Maiden retornou à cena com Paul Di'Anno, seus seguidores se tornaram
ainda mais fanáticos. Instalados no Ruskin Arms (que virou assim uma espécie
de "base" de ação do Maiden), o conjunto tinha um sucesso fenomenal.
Enquanto que o Maiden conseguia tocar lá três ou quatro noites numa semana e
enchia o lugar em todas elas, as outras bandas do pedaço só conseguiam fazer
um show por semana. A banda recebia a "preciosa" soma de 30 libras por
noite, o que queria dizer que todo mundo no Maiden tinha que se manter firme nos
seus empregos durante o dia.
A PRIMEIRA GRAVAÇÃO
Mas Harris estava longe de se contentar em ser apenas o líder da banda herói
do local. Queria expandir, crescer, não importando as dificuldades. Gravar uma
demo tape por conta própria para conseguir shows fora do circuito da East
London pareceu o caminho mais lógico. Impressionado com a fita demo que Wilcock
e Terry Wapram haviam gravado com sua nova banda V-1 nos estúdios Spacewood em
Cambridge, Steve resolveu fazer o mesmo. Custaria mais caro e o estúdio ficava
mais longe que outros, mas Harris queria uma fita de qualidade e resolveu não
economizar nos palitos.
O dia 31 de dezembro de 1978 era a única data que conseguiram e resolveram ir
adiante, embora não tivessem lugar para ficar. Mas graças ao charme e lábia
de Paul Di'Anno, que arranjou uma namorada enfermeira, tudo se resolveu. A boa
moça deu um jeito de levar toda a gangue para uma festa e conseguiu com que,
muitas cervejas depois, também dormissem por lá. As sessões duraram dois
dias, ao preço de 200 libras, e conseguiram a gravação de quatro músicas de
Harris: "Iron Maiden", "Invasion", "Prowler" e
"Strange World".
A banda voltou para casa com a intenção de retornar aos estúdios duas semanas
depois, quando teriam mais grana, para poder polir um pouco o produto, corrigir
alguns pequenos erros e fazer uma remixagem de algumas passagens. Infelizmente a
banda não dispunha de dinheiro suficiente para comprar a fita original e,
quando retornaram duas semanas depois, ficaram sabendo que ela tinha sido
apagada! Assim sendo tiveram que ficar com a cópia gravada "direto" e
foi ela que mais tarde se tornaria o primeiro registro em vinil do Maiden, prova
irrefutável do incrível entrosamento e capacidade dos músicos desde aqueles
tempos. Logo depois eles levariam esta fita para Neal Kay, o disc Jóquei mais
quente da área de Heavy Metal que conheciam, dono de um lugar chamado
Soundhouse em Kingsbury.
UM LUGAR DIFERENTE: SOUNDHOUSE
Neal Kay era uma figura esquisita, para dizer o mínimo: longos bigodes e
cabelos, baixinho e usando botas altas, parecia um refugiado de Woodstock. Até
sua maneira de falar era hippie, coisa totalmente fora de moda no fim dos anos
70. Mas era um cara que amava apaixonadamente o Heavy Metal. E o Soundhouse era
a prova disso.
Havia outras discotecas que tocavam este tipo de música na época (1979), mas o
Soundhouse era O local, o point de encontro de todos os que realmente conheciam
o que era o melhor. E não só porque tinha uma aparelhagem de som muito maior
do que qualquer outra disco, caixas de som empilhadas até o teto, que mais
pareciam indicadas para uma banda do que para uma danceteria.
O que tornava o Soundhouse uma coisa única era realmente seu dono, guru e luz
guiadora: Neal Kay, o homem que estabelecera a fama do local em termos
nacionais. Havia outros DJs que tocavam Heavy Metal na época, mas absolutamente
ninguém com a sua capacidade ou garra. Para ele o Soundhouse não era apenas
uma discoteca - era uma missão. Kay não queria saber nem tocava velhos
standards do gênero. Nem modismos. Ele estava interessado nos últimos
lançamentos, nas novidades e em fitas demo promissoras. Queria também usar o
Soundhouse como base para promover novas bandas. Kay tinha uma atitude meio
messiânica em relação ao metal.
Foi numa tarde daquele ano que um tímido Dave Murray trouxe-lhe uma cópia da
demo que gravaram no ano-novo, tentando conseguir arranjar uma apresentação no
local. Kay se lembra bem da ocasião: "Eu disse: 'Ok, vocês e cinco
milhões de outros'. Aí eu falei para ele deixar a fita comigo e talvez eu
tivesse a chance de ouvi-la umas duas semanas depois. Eu realmente me recrimino
por ter dito aquilo!" Mas quando Kay resolveu por a demo para tocar, ficou
impressionado com o potencial da banda. Ficou louco com o som e tocava-o sem
parar. No outro dia telefonou correndo para onde Steve Harris estava
trabalhando: - "Vocês têm algo aqui que vai te render milhões!"
Steve só podia rir. Achou que ele estava passando um trote.
Mas Kay tinha razão: "Eles tinham uma impressionante unidade de som. Tá
certo, havia umas notas erradas aqui e ali, mas Steve e Cia sabiam que
precisavam de um estúdio decente. Não perderam tempo, foram lá e trabalharam
duro. E a coisa toda foi costurada muitíssimo bem. Fizeram o melhor que podiam
na época. E musicalmente era impressionante. Era a melodia somada à porrada
que me impressionou. Bandas agressivas existem às dúzias desde então, mas
nenhuma com aquelas canções. A combinação de peso, velocidade, as mudanças
de andamento, e as linhas melódicas de Dave Murray realmente me derrubaram. Era
um som muito original e muito impressionante... Definitivamente a mais
impressionante demo que jamais me mandaram."
Kay costumava mandar uma "parada de sucessos” para a prestigiosa revista
Sounds desde 1978. Como tudo que se relacionava com HM, ele levava isso muito a
sério e era baseada exclusivamente nos pedidos dos garotos que frequentavam o
Soundhouse. Logo Kay começou a tocar a fita do Maiden no PA. E ninguém ficou
mais surpreso que os membros do grupo quando viram "Prowler" aparecer
em vigésimo lugar na revista, na edição de 17 de fevereiro de 1979. Steve
recorda: "Eu e Paul fomos então no Soundhouse para ver como era aquele
lugar. Ninguém nos conhecia, éramos somente mais dois headbangers bebendo no
bar. Quando começaram a tocar 'Prowler' a gente ouviu aquela gritaria. Foi
muito estranho ver aqueles garotos batendo as cabeças pra gente!"
Em 21 de abril, Prowler atingia o número um da parada da Soundhouse e lá
ficaria por meses. Uma semana depois a banda estreava no lugar. O público
enlouqueceu e o único senão ficou por conta do cenário, que não coube
direito no fundo do palco e a cabeça de Eddie, ficou bem acima da bateria.
Quando o sangue jorrou da boca durante a música "Iron Maiden", Doug
Sampson levou um banho que não estava esperando.
Vale a pena notar aqui que quase que a banda vai pelo ralo logo no início de
1979 quando um caminhão, com todo o equipamento que possuíam, foi roubado em
Fletching Road, Clapton. A banda chegou a mandar um anúncio na Melody Maker,
sem muita esperança, avisando do roubo e oferecendo uma recompensa para quem
conseguisse encontrar o material. Felizmente, poucas semanas depois os ladrões
foram presos pela polícia antes que conseguissem passar à diante o que tinham
roubado e o Maiden conseguiu quase todo seu equipamento de volta intacto.
Foi seu sucesso nas paradas da Soundhouse que deu ao Maiden o primeiro gosto de
atenção nacional. Mas seria Neal Kay quem realmente daria o
"empurrão" necessário. Ele resolveu levar alguns de seus protegidos
para a estrada para provar que o Heavy Metal, longe de ser um gênero
ultrapassado, estava vivo e bem e tinha uma fornada de novas bandas prontinhas
para arrebentar o mundo com suas guitarras. Foi Geoff Barton, através do seu
editor da Sounds Alan Lewis, e meio de brincadeira, que acabou batizando a
empreitada num termo que ficaria na história da música pesada: New Wave Of
British Heavy Metal (NWOBHM).
Foi numa terça-feira à noite, em maio de 1979, que se deu a estréia de três
bandas escolhidas por Kay: AngelWitch, Samson e Iron Maiden. Kay em pessoa
cuidou da apresentação das bandas, sendo o DJ da noite. Geoff Barton, que não
estava muito convencido de que veria algo especial, foi lá ver o que seria a
primeira apresentação pública do novo fenômeno. O Maiden passou fácil como
a melhor banda da noite, colhendo todos os maiores elogios no quesito
originalidade, composições e presença de palco. Impressionado, Barton saiu de
lá cunhando o termo NWOBHM e iniciando uma série de artigos sobre o fenômeno.
Estes artigos deram origem a uma revista paralela, que chamaram de Kerrang!,
hoje uma das mais prestigiosas revistas de Heavy Metal do mundo. A bola de neve
tinha começado a rolar.
SURPRESAS DO ACASO: UM EMPRESÁRIO NADA COMUM
Foi nessa mesma época, no verão (europeu) de 1979, que outra figura importante
entra em cena: um certo Roderick Charles Smallwood. Smallwood chegou a estudar
na Trinity College de Cambridge durante três anos, pulando de uma matéria para
outra e aproveitando seu tempo para ir a festas, jogar Rugby ou ficar de porre,
perdendo provas e trabalhos até receber ordem de pular fora da faculdade ou
correr o risco de ser expulso. Antes disso tinha começado a trabalhar no
grêmio local num evento anual chamado May Balls, junto com outro colega seu,
George Andy Taylor, que, ao contrário de Rod, terminou a faculdade e continuou
parceiro dele durante os anos seguintes. No May Balls, meio por acaso, ajudou a
organizar eventos musicais e tomou gosto pela coisa.
Logo depois de cair fora de Cambridge, Rod conseguiu um emprego numa agência
que cuidava dos interesses de várias bandas de rock famosas naquela época, a
MAM. Entre seus contratados estavam os Kinks, Judas Priest, Golden Earing e
outros. Depois resolveu dar um tempo sem fazer nada para logo em seguida se
arriscar como empresário pela primeira vez com o bom grupo Cockney Rebel, do
cantor e jornalista Steve Harley. Após uma frustrante experiência, em que
acusou a gravadora RCA de sabotar o grupo (além de ter que lidar com o ego
incontrolável de Hartley), Rod se encontrou desiludido com o mundo do
showbusiness. Chegou mesmo a pensar em desistir de tudo completamente e voltar
à faculdade para estudar Direito.
Aconteceu no entanto que um amigo seu trabalhava num escritório de arquitetura
e conhecia a família de Steve Harris. Sabendo do passado musical de Rod
passou-lhe um dia a fita demo que o Maiden tinha gravado em abril de 1979. Mais
tarde Rod se lembraria de ter ficado impressionado com o que ouviu, mas sem ter
certeza se haveria algum futuro nesse tipo de música. Além disso, já tinha
programado uma turné de rugby na Califórnia. Mas na volta em junho, depois que
a namorada lhe deu um tremendo pé na bunda, se viu livre e solto de novo no
mundo. E, nessas alturas, as reportagens da revista Sounds sobre as novas bandas
sugeria que o Metal poderia estar voltando.
"Eu nunca estive nesta de punk ou coisa parecida" Comentaria Rod
alguns anos depois: "Meu negócio era rock e é por isso que fiquei
desiludido com essa coisa toda em primeiro lugar. Eu pus pra tocar a fita do
Maiden mais algumas vezes, gostei do que ouvi, telefonei para Steve Harris e lhe
disse que estava interessado em ver a banda ao vivo. Não queria ir ao East End,
porque eu tinha ouvido muitos boatos da má fama do lugar e era tão preguiçoso
quanto esses caçadores de talento para ir por lá."
Então Rod arranjou dois lugares para o Maiden dar shows de demonstração. Um
deles seria no castelo de Windsor na região norte de Londres e outra no Swan,
em Hammersmith. Nada aconteceu de acordo com os planos. No Castelo de Windsor a
banda teve problemas com a autoridade local, o equivalente a prefeito, que ficou
tentando coloca-los para tocar antes que a maioria de seus fãs tivesse chegado.
Não sabendo bem de quem se tratava, a banda mandou o prefeito enfiar suas
exigências naquele lugar, o que lhes custou uma boa temporada sem poder
aparecer em North London.
As coisas estavam melhores no show em Swan, com tudo nos lugares até que cinco
minutos antes de subirem ao palco. Steve chegou até Rod para dizer, muito sem
graça, que Paul Di’Anno tinha sido preso. Aparentemente a polícia o achou
suspeito de drogas e o revistou, achando uma pequena faca (que o mascarado
cantor usava para aparecer palitando os dentes). Paul foi detido como suspeito e
os policiais não quiseram saber dos desesperados pedidos da banda que tinha uma
apresentação em minutos. Sabendo que teriam de enfrentar um clube cheio de
gente e um empresário em potencial, o Maiden resolveu arriscar tudo e mandou
ver como um trio, num set quase todo instrumental, com Steve Harris arriscando
um pouco como cantor. Di’Anno ainda chegou a tempo de participar das últimas
músicas depois de pagar pequena fiança. Rod achou o máximo.
"Eu fiquei muito impressionado." - Relembraria anos mais tarde
"Eu nunca tinha visto uma banda que olhava a platéia nos olhos e estavam
curtindo tão descaradamente o show quanto o público. Então ficou muito claro
para mim naquela primeira experiência que eles seriam do tipo que poderiam ir
longe, porque eles tinham uma boa estrutura, atitude, muita integridade, e a
energia e o carisma no palco só do Steve e do Dave era muito, muito poderosos.
Eu acho que foi a honestidade deles que me impressionou mais. Eles eram
verdadeiros."
NOVAS PORTAS SE ABREM
A primeira coisa que resolveu fazer pela banda foi arranjar para ver como se
comportariam diante de platéias de outros lugares. Assim sendo, através de
seus contatos adquiridos durante os tempos na agência londrina, arranjou
apresentações em cidades como Blackpool e Aberdeen, na Escócia. Para isso
precisariam de um meio de transporte. Até então as distâncias maiores eram
percorridas com uma velha pick up caindo aos pedaços. Quem veio salvar a
situação foi uma tia de Steve, Janet, que devia ter muita fé no sobrinho
cabeludo, pois emprestou três mil libras (quase toda a sua poupança), para que
pudessem comprar um caminhão de três toneladas, logo batizado de Green Goddess
(a Deusa Verde). Vic Vella, que fazia parte junto com Dave Lights da entourage
do Maiden na estrada, teve dois dias para transformar o caminhão em um ônibus
que pudesse levar a turma toda mais o equipamento com o mínimo de conforto na
estrada. "Ele fez um ótimo trabalho".
Relembra Steve "Tinha até um interfone, de modo que a gente podia avisar o
motorista que queríamos parar para ir ao banheiro. Nós não tínhamos dinheiro
para pagar um hotel, então tínhamos de fazer o show e depois dormir no
ônibus. Me lembro uma vez quando tocamos no Birkenhead Gallery Club e estava
tão frio que quando acordamos estávamos cobertos por uma fina camada de geada!
Mesmo assim era divertido."
Vic Vella lembra-se de algumas aventuras desses tempos. Uma delas chegou a ser
bastante séria: "Paul era o tipo do cara que adorava começar uma encrenca
mas não gostava de ficar para termina-la. Eu me lembro de uma vez que ele
arranjou uma briga com duas pessoas em Rock Garden. Eu fui para ver se conseguia
acalmar as coisas e quando eu olhei em torno o Paul tinha desaparecido e a
última coisa que eu me lembro é alguém me acertando uma garrafa." Outro
incidente menos violento aconteceu quando eles resolveram parar num lugar calmo
durante a noite, depois de um show, para dormirem. Só na manhã seguinte
descobriram que o lugar calmo era na verdade um estacionamento e que estavam
cercados de carros por todos os lados, levando duas horas para conseguirem sair.
Ainda se apresentavam no Soundhouse com regularidade para um público cada vez
mais alucinado. Mas o interesse das gravadoras continuava morno, se tanto.
"Olheiros" não apareciam com frequência. Mesmo quando Rod Smallwood
usou todo o seu prestígio para conseguir que a banda tocasse no famoso clube
Marquee, houve pouca resposta desses senhores. Uma das primeiras vezes que isso
aconteceu foi quando a banda deu alguns shows de graça nos dias 3 e 4 de
outubro no The Swan.
(Rod Smallwood se lembra de ter ficado a noite inteira acordado desenhando os
posters do show, para economizar. Vale a pena apontar que o pão-durismo do
senhor Smallwood se tornou tão notório durante a carreira do Maiden que ele
ganhou o apelido de Smallwallet [carteira pequena].)
Naquelas alturas a banda continuava com o problema de um outro guitarrista para
melhorar o som ao vivo. Paul Todd passou no teste mas ficou só dois dias. Tony
Parsons o substituiria durante umas dez semanas e apareceria em algumas das
primeiras fotos promocionais do maiden. Nos shows os representantes das
gravadoras continuavam devagar: o da A&M nem deu as caras. O da CBS viu
algumas apresentações mas achava que as músicas não tinham "Força
suficiente" (!). Os irmãos Warner também não se impressionaram. Aliás,
demoraria algum tempo antes que as gravadoras descobrissem o que estavam
perdendo com o renascimento do metal e irem atrás de qualquer bandinha que
soubesse tocar alguns acordes que lembrassem Deep Purple.
Mas nem todas estavam tão alienadas. A EMI sentiu que algo estava acontecendo e
um dos diretores, Ashley Goodall, resolveu lançar uma coletânea com as novas
bandas para testar o mercado. Ela se chamaria Metal For Muthas. Desde o
princípio ficou claro que o Maiden era uma banda única, especial. Ao
contrário das outras, o Maiden negociou sua participação na coletânea de
forma extremamente profissional e dura. Rod se lembra: "Tínhamos que fazer
as coisas do nosso jeito ou não o faríamos. Isso queria dizer que teríamos
pelo menos dois dias para gravarmos no estúdio Manchester Square da EMI. E nós
insistimos em termos duas faixas incluídas, sendo que uma delas seria a
primeira do lado A. Nossa atitude era: ou do nosso jeito ou de jeito
nenhum."
Rod mostrou a Goodall um show do Maiden no Marquee e este ficou maravilhado com
a performance da banda e da reação quase histérica da platéia. Ao voltar,
contou a seu chefe, o diretor de talentos Brian Shepherd, o que viu. Shepherd
foi pessoalmente na Soundhouse para ver a tal maravilha do Metal em primeira
mão. Acontece que ele se perdeu no meio do caminho e só conseguiu chegar ao
Soundhouse no meio da apresentação, onde o Maiden estava arrasando como de
hábito. Shepherd não iria tentar lutar por um lugar na frente no meio de um
pub lotado de garotos alucinados.
Ficou atrás, mas não pôde ver muito: em minutos um fã mais atirado levantou
uma bandeira que impediu o baixinho empresário de ver qualquer coisa. Nem era
preciso: só alguém muito insensível não notaria a atmosfera elétrica que a
banda produzia e a resposta imediata do público. Era uma mina de ouro. Shepherd
voltou convencido e em pouco tempo o Maiden tinha um contrato com tudo que
pedira, assinado oficialmente em 15 de dezembro daquele ano.
O contrato foi um golpe de mestre de Rod Smallwood. Ao invés de ficar
satisfeito com um disco e um bom adiantamento, como a maioria das bandas sempre
fazem, Rod arrancou da EMI um raríssimo contrato de cinco discos (três
garantidos) em troca de um adiantamento bem pequeno ( “Apenas o estritamente
necessário para pagarmos dívidas e trocar algum equipamento caindo aos
pedaços” ). Rod sabia que o Maiden levaria uns três LPs para conseguirem
sucesso a nível mundial e a banda concordou em segurar as pontas
financeiramente durante mais algum tempo. Assim, a gravadora não poderia
dispensá-los, cheios de dívidas, se não dessem certo no primeiro disco.
Só então é que Rod decidiu oficialmente se tornar o empresário do Iron. Não
era o caso de conseguir um contrato e sim de conhecer mais o pessoal da banda e
saber se eles não seriam como outros que encontrara no caminho e que tinham
mascarado completamente uma vez que conseguiram alguma fama. Acertadamente, Rod
concluiu que eles eram profissionais com os pés no chão e que não iam entrar
numa trip de superstar. Pouco tempo depois do contrato, conversando com Steve
Harris sobre planos futuros, o baixista perguntou então: "Quer dizer
então que você vai nos empresariar?" e ouviu a resposta do homem de
Yorkshire: "Yeah, fucking right I am!"
O novo contrato fez com que Rod começasse a lutar para lançá-los em escalas
maiores, conseguindo um empréstimo de 8000 libras de várias fontes (segundo a
lenda, de algumas até bem suspeitas). No final de outubro ele tinha fé
suficiente no sucesso para convencer os membros do Iron Maiden a deixar seus
empregos diurnos - todo mundo no Maiden ainda trabalhava (ou, como no caso de
Paul, vivia de seguro desemprego) - para embarcar em sua primeira tour como
atrações principais que foi de primeiro de novembro até dezesseis de
dezembro, em clubes e faculdades por toda a Inglaterra.
THE SOUNDHOUSE TAPES
E, no dia 9 de novembro, para saciar um pouco a sede dos fãs, o Maiden decidiu
lançar três das músicas que tinham gravado no último dia de 1978, como um
EP, que se chamaria The Soundhouse Tapes - "Iron maiden",
"Prowler" e "Invasion" - através de seu próprio selo, Rock
Hard Records, prensando somente 5000 cópias. Usando fotos tiradas no Soundhouse
e de alguns shows no Music Machine, o disco trazia as proféticas palavras do
profeta DJ Neal Kay na contracapa:
"(...) As faixas deste EP são as primeiras coisas gravadas pela banda e
são as autênticas músicas não-remixadas tiradas da fita demo gravada em 30
de dezembro de 1978, e que foram apresentadas ao Soundhouse uma semana depois.
Depois de uma ouvida ficou claro que o Iron Maiden se tornaria um dos líderes
do Heavy Metal atual, combinando um tipo de talento e energia dirigida que o
mundo da música jamais poderá ignorar!" (E como o senhor Kay acertou na
mosca!)
Steve Harris pessoalmente escreveu à mão todo o projeto gráfico, incluindo o
selo, títulos e créditos - foi ele quem criou o famoso logotipo do Maiden. The
Soundhouse Tapes, como ficou conhecido o EP, nunca foi vendido em lojas, sendo
distribuído exclusivamente por Keith Wilford: um dos mais antigos fãs do grupo
e que teve o mérito de ser o primeiro a aparecer num show do Maiden com uma
camiseta com o nome da banda (feita de improviso por ele mesmo). Keith, que
tempos depois viria a trabalhar no escritório do Maiden e cuidar do fã-clube
oficial durante muitos anos, estocou as cópias na casa em que vivia com sua
mãe. Em uma semana já tinham vendido 3000 exemplares, o que dá alguma idéia
da demanda. E poderiam ter sido muito mais, pois Rod recebeu chamados das grande
cadeias de lojas de discos pedindo quantidades enormes de cópias (20.000 só em
uma semana). Mas banda e empresário se recusaram a atende-los. Embora o
dinheiro oferecido tivesse chegado numa hora de necessidade, era desejo do
Maiden que o disco fosse uma coisa muito especial, um presente para os fãs mais
fiéis, que tinham acreditado neles desde o princípio.
Enquanto o EP era vendido rapidamente, a banda também excursionava rapidamente
em torno da Inglaterra, fazendo shows memoráveis. Na volta, uma apresentação
do Maiden entrou como atração principal no Music Machine ficou na memória da
banda e de muitos outros pelos motivos errados. Batizada de Bonfire Night (a
Noite da Fogueira), a banda, e mais particularmente, Dave Lights, resolveu fazer
uma apresentação cheia de pirotecnias. No momento fatal em que Dave apertou o
botão todos os fogos de artifício dispararam ao mesmo tempo, estourando
também todos os fusíveis do lugar e deixando tudo às escuras!
E, para variar, a banda já estava procurando outro guitarrista. Segundo consta,
Tony Parsons era bom, mas sua figura paradona no palco não era muito
estimulante. Até nas primeiras fotos promocionais do grupo ele parecia
deslocado e sem jeito. Também para variar, buscaram o substituto via anúncio
na Melody Maker: "Precisa-se: segundo guitarrista solo para começar
imediatamente. Base totalmente profissional. Precisa ser fanático por HM, tenha
22 anos ou menos. Apenas os mais pesados devem ser apresentar. NADA DE
DISCOTHEQUE, POP, MOD, etc..." Curiosamente, o escolhido não seria nem um
fanático por Heavy Metal nem tinha 22 anos ou menos, como veremos um pouco
adiante.
ON THE RADIO
No dia 14 de dezembro, sem Parsons e como um quarteto, fizeram sua primeira
apresentação no Rádio, na Friday Night Rock Show da Radio One. Tocaram seus
futuros clássicos: "Iron Maiden", "Sanctuary",
"Transylvania" e "Running Free". Depois ainda fizeram mais
dez shows antes do ano terminar, sendo o maior destaque uma noite
particularmente inspirada no Marquee. Malcolm Dome do Record Mirror se babou
todo sobre aquela apresentação e anotou no final: “Estes caras vão
arrebentar a velha geração de metaleiros para fora de suas suítes
presidenciais nos próximos meses." Outro show no Music Machine, no dia 19,
mostrou o senso de humor da banda, com amplificadores cobertos de neve falsa e
até um papai noel headbanger. Foi um final muito engraçado para um ano
sensacional para a banda.
Em um ano eles tinham conseguido muito mais do jamais tinham sonhado:
tornaram-se atrações principais nos prestigiosos Music Machine e Marquee.
Tiveram muita e boa cobertura da imprensa, arranjaram um empresário de verdade,
uma agência e um contrato de gravação com uma gravadora multinacional. Os
dias em que trabalhavam duramente no Ruskin Arms por 30 libras por noite
ficariam para trás. A banda ria ao pensar que no início tudo o que queriam era
ser o número de abertura para algum medalhão no Marquee. Seu dono, Jack Barry,
tinha se recusado a aceitá-los várias vezes antes de outubro de 1979. Nunca
mais cometeu tal erro.
OS HERÓIS DA NOVA DÉCADA
O Maiden inaugurou os anos 80 com uma nova formação. Primeiramente conseguiram
como guitarrista um cara de 27 anos chamado Dennis Straton, veterano de algumas
bandas locais. Na realidade sua primeira escolha foi o velho amigo e companheiro
de guitarra de Dave Murray chamado Adrian Smith. Mas Smith, que liderava o
Urchin, acreditava na sua banda e não quis deixá-la numa hora em que parecia
que seria bem sucedida - tinham até conseguido um contrato de gravação antes
do Maiden. Entretanto, Straton não ficava nada atrás em habilidade musical.
Melhor: no palco era animado e ágil como seus companheiros. Fora do palco era
um palhaço: embora fosse mais velho que todos os outros, agia como um garoto de
17 anos. Parecia ser o cara ideal.
A segunda mudança ocorreu por outros problemas: Doug Sampson estava com a
saúde meio abalada e todos sentiram que não estava bem o suficiente para os
rigores das futuras tournés: meio a contragosto ele acabou concordando que não
estava bom o bastante para ir adiante. Seu substituto era um garoto louro,
simpático e muito bom nas baquetas chamado Clive Burr. Burr tinha tocado por um
breve período no Samson e dizia a lenda que vinha recomendado por Neal Kay. Na
verdade foi Dennis Straton que o indicou para uma audição. Clive foi aprovado
rapidamente depois que demonstrou sua habilidade na difícil Phantom Of The
Opera.
AS PRIMEIRAS GRAVAÇÕES "SÉRIAS"
A primeira coisa que a banda queria fazer era gravar um compacto e, para isso,
precisavam de alguém capaz de mexer nos controles e conseguir o som que os
representasse bem. Inicialmente tentaram Gary Edwards, do East End Studios, mas
não ficou muito bom, só sendo aproveitada uma gravação, 'Burning Ambition',
que viria a ser o lado B de Running Free. Entraria para a história tanto por
ser uma das primeiras coisas que Steve escreveu, como também a única
gravação, fora o Soundhouse Tapes, em que Doug Sampson aparece. Nessa música,
ainda sem Straton, Dave Murray toca todas as guitarras.
Nova tentativa foi feita com o antigo guitarrista do Sweet, Andy Scott, mas deu
tudo errado. Para começar, Scott tentou convencer Steve a usar uma palheta ao
invés de sua fantástica técnica de dedos no baixo, e foi informado onde
deveria enfiá-la. Depois seu empresário quis arrancar da banda a garantia de
produção do LP e eles lhe disseram para onde ir. Por fim, foi Brian Shepherd,
da EMI, quem sugeriu Will Mallone, que tinha no seu currículo produções de
discos do Black Sabbath e Meatloaf. Ele acabaria produzindo tanto o compacto
quanto o primeiro álbum da banda. A gravação foi feita no Morgan Studios, com
uma boa ajuda do engenheiro Martin Levan.
Antes que lançassem o sensacional single contendo "Running Free", no
entanto, a EMI pôs no mercado a coletânea "Metal For Muthas"
ansiosamente aguardada por todos. Foi um vexame. O que deveria ser uma
amostragem abrangente do muitos grupos novos do Metal virou uma colcha de
retalhos com conjuntos fraquíssimos como Toad The Wet Sprocket e Ethel The
Frog. Apenas o Maiden, que compareceu com "Wrathchild" e
"Sanctuary", era completamente convincente. O disco, longe de mostrar
o potencial do New Wave Of British Metal, apenas reforçou a opinião de quem
acreditava que o metal estava morto e enterrado.
A única vantagem dessa coletânea foi uma série de apresentações da tour
"Metal For Muthas" como atrações principais, tendo seus velhos
amigos do Praying Manthis como grupo de abertura. Quem organizou tudo foi o
sempre eficiente Neal Kay, que sofreu com seus pupilos que fizeram muitas
brincadeiras de gosto duvidoso, como trocar os discos de capas e colar o braço
de seu aparelho de som com Super Bonder. Dave Lights foi com eles levando novos
equipamentos. A equipagem ia num caminhão enquanto que os músicos e road crew
iam num ônibus de 52 lugares. Muitas vezes acabavam dormindo no bancos, já que
o motorista era tão devagar que raramente conseguia chegar no hotel em tempo.
Mas a tourné foi um sucesso. O Maiden sabia conquistar novos adeptos a cada
apresentação, com Steve Harris e seus asseclas se movendo todo o tempo
enquanto uma barragem de som pegava a platéia em cheio. Ainda que as
condições das viagens não fossem das mais confortáveis, o grupo mostrava um
profissionalismo à toda prova, o que sempre marcou a carreira do Maiden.
RUNNING FREE NA TV, AO VIVO!
Enquanto o Maiden conquistava novas platéias, a EMI finalmente tinha algo para
mostrar ao mercado: o compacto Running Free. Rod Smallwood teve uma rápida
conferência com o pessoal encarregado da promoção só para dizer-lhes que se
a banda fosse convidada para o programa "Top of The Pops" ( uma
espécie de Globo de Ouro de lá ), eles não o fariam de jeito nenhum.
"Eles devem ter pensado que eu era algum retardado. - Lembra-se Rod rindo -
Em primeiro lugar porque bandas de Heavy metal não tinham compactos de sucesso
então, especialmente o primeiro compacto e em segundo lugar, se acaso o
tivesse, era uma loucura recusar a tocar no Top Of The Pops".
O pessoal da promoção levou um susto, pois a banda de Heavy Metal teve o seu
compacto entrando nas paradas logo na primeira semana de lançamento, no número
44. Foi uma surpresa, mesmo para quem conhecia o Maiden e via seu potencial de
vendas como no caso do Soundhouse Tapes. Assim sendo, Iron Maiden foi de fato
convidado a se apresentar no Top Of The Pops, provavelmente a única banda nova
a ser oferecida essa honra na primeira semana de lançamento de seu primeiro
compacto. Para uma banda de rock pesado isso era ainda mais sensacional.
Naturalmente o pessoal da gravadora entrou em pânico quando o grupo confirmou
que não tocaria no programa. Explicação: não fariam play back. Só fariam o
programa se pudessem tocar de verdade. Para a surpresa de muitos, a direção
concordou e o Maiden se tornou o primeiro grupo a tocar ao vivo no programa
desde que o The Who o tinha feito oito anos antes. Claro que não foi sem
aborrecimentos, tendo que tocar bem mais baixo do que estavam acostumados. Ainda
assim foi uma apresentação energética, bem diferente dos popinhos insossos
que tocaram antes e depois deles.
Infelizmente as rádios continuaram boicotando bandas de HM e se recusaram a
acreditar no novo compacto. Ainda assim "Running Free" chegou ao nª
33, no princípio de março, quase que só na base do boca a boca.
DEREK RIGGS E EDDIE ENTRAM EM CENA
O compacto, cuja letra foi escrita por Paul Di’Anno e, segundo ele mesmo,
baseada nos seus primeiros tempos de adolescente rebelde, trouxe uma novidade
que marcaria toda a carreira do Maiden e ajudaria a estabelecer sua reputação:
a capa desenhada por um cara chamado Derek Riggs.
Tudo aconteceu por acaso. Rod Smallwood estava discutindo com um agente amigo
chamado John Darnley sobre como deveria ser a arte da capa (era outubro de 79,
bem antes de conseguirem o contrato) quando viu um poster de jazz na parede. Rod
ficou impressionado com o desenho de Riggs e queria ver mais. Derek então foi
convidado a trazer seu book para o escritório do Maiden. Na maioria seus
desenhos eram sobre ficção científica, muito bons, mas não era esse tipo de
imagem que a banda tinha em mente. Mas um deles chamou a atenção de todos: um
mutante com o olhar louco que combinava perfeitamente com a idéia de Eddie, the
Head, (só precisou que Derek mudasse seu cabelo para ficar mais HM e menos
parecido com um punk). Ficaram tão fissurados com o desenho que o escolheram
para a capa de seu primeiro LP, embora ainda não tivessem nem sequer assinado o
contrato.
Na capa do compacto 'Running Free' um fã de rock foge de uma figura do Eddie
armado de uma garrafa quebrada, num beco escuro. A idéia foi de Paul, mas a
banda pediu para Derek esconder a cara de Eddie nas sombras porque não queriam
tirar o impacto da capa do LP quando saísse, quando introduziriam a figura de
forma apropriada.
O LP enquanto isso foi gravado na Kingsway Studios e mixado no Morgan Studios,
em fevereiro. 'Running Free' tinha sido lançado e a banda conseguiu uma chance
de abrir para o Judas Priest, na honrosa condição de "convidados
especiais". Mas quase tudo foi por água abaixo quando o boca grande Paul
Di’Anno deu uma declaração na Sounds dizendo que iam "arrebentar com o
Priest". Assim, quando a banda foi ao ensaio carregados de presentes (isto
é, cervejas), um irritado K K Downing os colocou para fora sem cerimônia. Mais
tarde, trabalhando juntos, as relações ficaram ok e a tour deu muito certo.
Durante a tourné o Maiden tinha um set de 45 minutos, sendo muito bem
recebidos. Sua popularidade pôde ser medida quando, numa votação de melhores
do ano da Sounds em janeiro, conseguiram o quarto lugar como a melhor nova banda
antes de lançado qualquer coisa!
IRON MAIDEN
Logo depois da tour com o Judas Priest, saía o primeiro LP da banda, chamado
apenas de Iron Maiden. Lançado no dia 11 de abril de 1980, foi um sucesso
absoluto, superando todas as expectativas, indo direto parar no nª 4 dos mais
vendidos em uma semana e dando à banda um disco de prata em apenas um mês. Nem
mesmo Steve Harris acreditou quando ouviu falar que o disco tinha chegado lá (
"Esperávamos chegar aos top 40 ou mesmo até 14... não no 4 de
cara!" ).
A crítica especializada amou o disco, se desmanchando toda, embora insistissem
num ponto que irritou a banda, chamando-os de "cruzamento de Heavy Metal
com Punk" (uma expressão muito em voga na época). Os críticos ignoravam
que as músicas haviam sido escritas anos antes do punk aparecer e que nunca
houve um cruzamento entre o Maiden e os punks. Ambos os tipos se desenvolveram
paralelamente e o Maiden era um autêntico herdeiro das bandas precedentes do
heavy setentista (Deep Purple, UFO, Scorpions, etc.). Mas os críticos amavam os
punks, eles ainda estavam na moda e a maioria havia ignorado o estilo HM até o
Maiden estourar na cara deles. Erros como este continuariam a acontecer.
Mas o disco era uma maravilha e ainda hoje impressiona desde os primeiros
acordes de 'Prowler" até a última nota do hino 'Iron Maiden", com
uma variedade de sonoridades raramente ouvida numa estréia. Embora nos anos
seguintes Steve Harris reclamasse muito que a produção foi ruim, a qualidade
das músicas e a energia das interpretações faziam disso um detalhe mínimo. A
banda não deixava dúvidas quanto à sua versatilidade seja nas variações de
'Phantom of The Opera', no instrumental 'Transylvania' ou na linda 'Strange
World', onde provavam que eram capazes de tocar coisas mais leves e fazê-lo
bem. Claro que ajudou muito a capa, um primor, impossível de se ignorar. A
falta de duas músicas favoritas de shows, 'Sanctuary' e 'Wrathchild', foi uma
decepção para o público, mas aconteceu da banda estar guardando a primeira
para o próximo compacto, enquanto uma versão mais bem produzida da segunda
apareceria no álbum seguinte, Killers. (obs. Quando Iron Maiden foi relançado
em CD, algumas edições incluíram 'Sanctuary', mas não a brasileira).
Voltando para a estrada em abril, o Maiden arrebentou em duas apresentações no
Marquee, antes de retornarem ao Ruskin Arms para um show beneficente. Logo
depois partiram para sua primeira tourné nacional como atrações principais
para promover o LP. Foi uma maratona de 42 apresentações, que, pela primeira
vez incluía a presença de um Eddie de corpo inteiro (na forma de Rod Smallwood
ou outros roadies mascarados). O único problema que pintou foi que tiveram de
cancelar algumas datas devido à perda de voz de Paul. Em Grimsby ele ficou
afônico bem no dia da apresentação e a banda não quis decepcionar os fã que
esperavam: tocaram um set instrumental e pediram para que as 500 pessoas
conservassem seus tickets porque eles voltariam à cidade para um show completo.
Sempre orgulhosos de sua honestidade e fidelidade, a banda cumpriu a palavra
voltando em outubro e fazendo o show sem cobrar nada deles.
Em Edinburgh foi a vez de Clive, que sofreu uma intoxicação alimentar. Mas,
levando em consideração que eles não podiam tocar sem um baterista, os
roadies o carregaram da cama para o palco. Burr desmaiou um minuto depois que o
show acabou (isso é que é profissionalismo!). A tour incluiu a primeira
apresentação no Finsbury Park Rainbow, onde tiveram lotação esgotada, e o
clímax foi numa festa arranjada pela EMI no Museu de Horrores de Madame
Tussaud.
Durante a tourné a gravadora lançou o single 'Sanctuary', que causou muita
polêmica por causa da capa: um Eddie armado de uma faca, tendo a seus pés a
vítima: uma Margaret Thatcher (a primeira ministra da Inglaterra na época),
que havia arrancado da parede um poster do Iron Maiden. Para o azar da banda, o
lançamento coincidiu com pelo menos. dois incidentes desagradáveis:
importantes figurões conservadores tinham sido espancados por arruaceiros. Deu
muita conversa nos jornais e uma ameaça de censura. A gravadora então colocou
uma tarja nos olhos, embora ainda ficasse bem visível de quem se tratava. A
banda não estava muito atenta a toda esta conversa e sim no seu grande segundo
amor: o futebol, torcendo para o West Ham no final da Copa.
(Vale aqui uma nota: se você é fanático pelo Iron e percebeu em várias capas
os dizeres 'Up The Hammers!', fique sabendo que não é nenhuma mensagem
demoníaca e sim o slogan do West Ham. Nos Estados Unidos muitos ficariam
decepcionados ao saber disso. Um fã americano mais radical chegou a tatuar a
frase antes de saber do que se tratava.)
Enquanto isso o compacto, que tinha 'Drifter' e 'I've got The Fire' no lado b,
chegou ao nª 29 das paradas. Isso queria dizer que seriam convidados para o Top
Of The Pops de novo, mas o pessoal da TV estava no meio de uma greve. Para
compensar a banda tocou em julho no Marquee para serem filmados num especial
sobre a "Nova Onda de Heavy Metal", onde o Maiden era, desnecessário
dizer, a atração principal e teve uma cena hilária onde o DJ Neal Kay
declarava: "Eu detesto o termo Heavy Metal", ao mesmo tempo que usava
uma camiseta com os dizeres: Heavy Metal Soundhouse!
Depois foram tocar no Reading Festival onde dividiram a noite principal com seus
heróis do UFO. A crítica amou, claro: "Iron Maiden provou que são os
heróis do Sábado à Noite" escreveu Robin Smith do Record Mirror
"Deram um trabalhão danado ao UFO para se equipararem." Também entre
os vários grupos que se apresentaram no festival, houve um que se destacou: o
veterano Samson, por causa de um cantor muito bom, chamado Bruce Bruce.
E a turma nem teve tempo de respirar direito: nova turné européia, 40 shows,
junto com os americanos do KISS. Foi de matar, pois enquanto os yankees podiam
se dar ao luxo de viajar de jatinho de compromisso em compromisso, nossos
heróis tinham que enfrentar enormes distâncias num ônibus meio capenga. O
crítico Geoff Barton, que escreveu sobre a maratona, conta que parece que só o
veterano Dennis Straton aguentou razoavelmente bem o terrível stress.
A tour incluía Itália, Suíça, Noruega, França, Suécia, Dinamarca,
Alemanha, Holanda e Bélgica. Muitas bandas iniciantes não teriam aguentado e
ficariam felizes em desistir de tudo e voltar correndo para casa. Não o Maiden.
Exceto por uma breve estada na Bélgica, nunca tinham excursionado fora da
Inglaterra. Ainda assim eles encontraram fãs enlouquecidos onde quer que
fossem. Até em cidadezinhas como Leiden, na Holanda, foram recebidos por bandos
de convertidos que tinham até bandeiras improvisadas e usavam camisetas com o
logotipo do Iron.
Arrebentados de cansaço que estavam, ainda assim conseguiam surpreender. Barton
foi um dos que escreveu sobre suas apresentações: "Eles estão tocando
com tanta velocidade que periga deles começarem a segunda música antes de
terem acabado a primeira." E, a contragosto, era forçado a declarar:
"Por mais que isso seja difícil de engolir, tenho que admitir que eles
deram muitíssimo trabalho para as atrações principais se equipararem."
Nada mal esse comentário vindo de um crítico que amava o KISS ao ponto de se
considerar seu "quinto membro"!
Ao contrário do que era de se esperar, o KISS não ficou enciumado com a banda
de abertura. Gene Simmons chegou mesmo a entrar no camarim do Maiden e elogiar o
disco da banda. "Aposto que você nem o ouviu." Soltou Paul,
desconfiado. Gene então se virou para ele e citou o disco faixa por faixa, na
ordem correta. Gene chegou mesmo a pedir uma camiseta da banda. Sabendo que o
pessoal do Kiss não usava camisetas que não fossem do próprio Kiss, o boca
grande Paul mandou essa: "Para que você quer uma, se nunca usa de outra
banda?" "É verdade". - Respondeu Simmons - "As pessoas não
me vêem usar muito outras que não sejam camisetas do Kiss. Mas se eu tivesse
uma que teria o nome de uma banda que vai ser uma das maiores do mundo, eu não
me importaria em usar." Falando nisso, as bandas se deram tão bem que o
KISS nem se importou quando Maiden jogou tortas na cara deles no palco durante a
última noite de turné...
SURPRESAS, DEMISSÕES E ENTRADAS
Voltando para casa, o Maiden ficou chocado ao saber que Neal Kay tinha sido
despedido da Soundhouse. Com seu temperamento irrascível e uma autoconfiança
que beirava a arrogância, Kay havia atraído muitas antipatias tanto quanto
seguidores. A banda chegou a escrever uma carta de protesto e até incentivou
uma greve contra o lugar, mas nada adiantou. Neal Kay então levou seu show para
a estrada e se dedicou a descobrir novos talentos.
A banda não teve muito tempo para se lamentar, já que enfrentava novos
problemas internos, que nunca ficaram totalmente esclarecidos, em relação a
Dennis Straton. Aparentemente Straton estava se afastando demais do resto do
pessoal da banda - preferindo viajar com os roadies, quando estava na estrada -
além de ter gostos musicais muito diferentes (Straton amava country-rock como
os Eagles, p.ex.). Dennis chegou mesmo a mexer me Phantom Of The Opera no
estúdio tornando-a mais pop, o que deixou Harris furioso, mandando-o apagar
tudo ( "Parecia Queen tocando Bohemian Rhapsody ao contrário." )
Apesar de, mesmo na época, o próprio Straton admitir que tinha sido um erro,
isso só reforçou a idéia de que tinham objetivos e conceitos musicais bem
divergentes.
Assim sendo, apesar do guitarrista dizer que estava "110% integrado"
isso não foi o suficiente para convencer Steve e Rod numa reunião e Dennis foi
convidado a se retirar. Straton saiu para formar o Lionheart, mas deitou na
imprensa contra o Maiden, dizendo quão injustamente tinha sido tratado,
chamando Steve com frequência de "Sargento Harris".
(Obs. Em muitas biografias, inclusive brasileiras, é dada a informação de que
Stratton teria saído por se considerar muito velho para a banda. Tal
afirmação não tem nenhum sentido).
Com uma guitarra a menos, o Maiden voltou a procurar o velho amigo de Dave
Murray, Adrian Smith. Ambos continuaram mantendo contato através dos anos e
Dave chegou mesmo a tocar como convidado no segundo compacto do Urchin, 'She's A
Roller'. O Urchin não conseguiu o sucesso esperado e acabou. Smith estava
tocando no Broadway Brats, mas andava chateado, sem dinheiro e desiludido (e, de
certa forma, como ele mesmo admitiu, com um pouco de inveja do amigo Dave).
Apesar de sua notória indecisão, quando recebeu o convite para um teste, não
vacilou um segundo. Vinte minutos depois de uma jam o grupo e Rod anunciaram que
ele estava aprovado. "Foi ótimo ouvir isso. Me senti como se estivesse
sendo aceito dentro de uma família, quase. De fato, a impressão que me
passavam era a de que eles eram como uma família. Eles cuidavam uns dos outros
e, uma vez que eu estava dentro eu não tinha que me preocupar com mais nada
além de tocar. É o sonho de todo músico." (nem tanto: mais tarde ele
afirmaria que entrar para o Maiden foi mais difícil do que esperava porque as
músicas de Harris eram muito diferentes e mais complexas do que as que estava
acostumado a tocar. Ele também sempre tinha sido o cantor e líder das bandas
que tocava até então.)
Aqui vale uma nota interessante: se Adrian novamente não estivesse disponível,
a banda já tinha outro nome em mente: um velho amigo de Paul Di'Anno,
guitarrista do grupo Girl, Phil Collen. Collen pouco depois entraria para o
multiplatinado sucesso Def Leppard.
Mais curiosidades para Maidenmaníacos: No breve período que esteve fora do
Maiden depois de ter brigado com Dan Wilcock, Dave Murray tocou com o Urchin e
eles já apresentavam "Charlotte The Harlot' ao vivo naquela época, além
de uma canção muito boa, que viria a ser '22 Acacia Avenue'.
A banda já tinha material e datas para gravar seu segundo LP, mas resolveram
fazer uma mini-tour para que Adrian tivesse tempo de se entrosar antes de
encararem o estúdio. Foi duro para ele. Logo a primeira data foi na Universiade
de Brunel tão perto de Londres que atraiu todo o staff da EMI e grande parte
dos fãs radicais do East End. Adrian admite que ficou "apavorado",
com os nervos à flor da pele com a expectativa. Não precisava: passou no teste
com louvor e a dupla Smith-Murray ficaria para sempre na memória de qualquer
fã como sendo uma das mais ricas da história do Metal. Curiosamente, vale
dizer que Dave costuma ser o mais espontâneo, criando muita coisa de improviso,
enquanto Adrian é mais cerebral e costuma compor seus solos antecipadamente.
Juntos funcionavam como um relógio suíço.
Para promover a mini-tour eles precisavam de um novo compacto, mas nenhuma das
novas composições parecia servir a este propósito. Foi quando sua editora
musical, a Zomba, sugeriu que regravassem 'Women In Uniform', do grupo
australiano Skyhooks, que tinham tido sucesso na sua terra natal com ela. O
grupo gravou-a com 'Invasion' no lado b, sendo que Dennis Straton ainda estava
no Maiden. A banda mais tarde renegou esta atitude, dizendo ter sido um erro.
Ainda assim o compacto chegou ao número 35 das paradas. Foram chamados ao Top
Of The Pops de novo mas deu tudo errado: brigaram com o cara do som que insistiu
em colocar o volume muito baixo e ficaram ainda mais aborrecidos quando
proibiram a aparição de Eddie naquele horário familiar. O Iron então jurou
nunca mais por os pés naquele programa: mesmo com mais de vinte hits nesse meio
tempo, eles só voltaram a se apresentar lá depois de quinze anos, em 1995, com
Blaze Bayley (quando então tinha mudado toda a diretoria da emissora).
(Obs. Em relação a essa música o Maiden foi um pioneiro, já que chegaram a
gravar um vídeo promocional para ela [último trabalho com Dennis Straton].
Isso foi antes da MTV, e a única banda de Rock que tinha feito algo semelhante
antes foi o Queen com a famosa "Bohemian Rhapsody'. Nesse aspecto o Maiden
estava um ano da frente de todos!)
KILLERS
Depois da tour de novembro, o Maiden correu para o Battery Studios para gravar
seu segundo LP, Killers. A banda já tinha tocado a faixa-título no festival de
Reading e foi muito bem recebida. De modo que estavam ansiosos para gravar,
ainda mais que tinham conseguido ninguém menos do que Martin Birch para a
produção. Birch tinha produzido alguns dos mais famosos álbuns do Deep
Purple, Rainbow e Whitesnake, entre outros. E, curiosamente, já tinha ouvido
falar do Iron Maiden já há algum tempo. A banda teria desejado tê-lo como
produtor desde o princípio, mas não tiveram coragem de convidar uma figura
tão ligada a seus ídolos logo para o primeiro trabalho. Uma pena pois o
surpreendente Birch (Chamado "The Headmaster" [diretor], por causa de
sua disciplina no estúdio) lhes comunicou que teria aceito trabalhar com eles
já naquele tempo.
Vale a pena citar aqui que a capa de Killers também teria um considerável
impacto na mídia. Hoje em dia talvez não passasse de mais um disco de Heavy
Metal, mas na época, assim como o primeiro LP, era extremamente original e
violenta: um Eddie sorrindo macabramente segurando uma machadinha ainda pingando
de sangue, enquanto a vítima (só as mãos ainda segurando a camiseta do
assassino aparecem no desenho) agoniza. Essa capa, idealizada por Dave Lights,
trazia alguns detalhes só percebidos pelos fãs de primeira hora: o local é
uma das ruas do East End (dá pra ver o letreiro do famoso clube Ruskin' Arms) e
Charlotte The Harlot observa a cena através da cortina de seu quarto.
O PRIMEIRO VÍDEO
Para finalizar o ano uma equipe da EMI contratou cinegrafistas para fazer o
primeiro vídeo ao vivo de uma das novas bandas a aparecer no mercado. Durante
um show triunfante no Rainbow o Maiden arrasou, como de costume, mesmo com um
exército de cameramens em volta deles. O som falhou na filmagem durante
números-chaves como 'Iron Maiden' e "Phantom Of The Opera". Depois
que o show acabou, Paul explicou ao público o que tinha acontecido e que iriam
repetir algumas músicas e se alguém quisesse ficar, seria bem vindo.
Resultado: nem uma única pessoa deixou o teatro até o final! Duas horas de HM
de primeira para os alegres sortudos da noite que viram a primeira filmagem de
um show do Maiden. A única reclamação era de que o vídeo, de apenas meia
hora, era muito curto. Mas quem naquela época, fora os fãs mais radicais,
podia prever que o Maiden iria crescer tanto?
Logo depois das gravações a banda tirou o mês de janeiro de 1981 para um bem
merecido descanso depois da loucura das tournés do ano anterior. As férias
foram boas mas não o suficiente para prepará-los para o que estava por vir
quando saíram as primeiras críticas do novo LP. A crítica o achou
decepcionante em relação ao primeiro e deixou isso bem claro: Robbi Millar da
Sounds rotulou Killers de medíocre chamando-o de "mais um fracasso do que
um triunfo". E depois foi ainda mais longe, insinuando que o primeiro disco
tinha chegado onde chegou somente com ajuda de publicidade.
Outros críticos também não foram muito gentis, embora a maioria não descesse
o pau com tanta força. Alguns elogios aqui e ali não tiraram o mal estar do
pessoal do Maiden, que ficou muito chateado, principalmente com a estória da
publicidade, totalmente falsa. Olhando para trás, dá pra notar que Killers
não era tão ruim assim, mas em certos pontos os críticos (na época)
pareceram ter razão em temer pelo futuro do Maiden. Em Killers as melhores
músicas eram, sem dúvida, as antigas 'Wrathchild', 'Drifter' e 'Innocent
Exile', sendo que entre as novas apenas a faixa-título se destacou o suficiente
para permanecer como clássico da banda. Killers não chega perto do impacto do
primeiro disco em termos de versatilidade e originalidade (embora ganhe muito em
termos de produção, mas isso se deve ao fato de terem o produtor certo desta
vez). Muitos temiam que Steve Harris tivesse usado todas as boas idéias no
primeiro disco e não estivesse dando conta de manter o nível de suas
composições. O álbum seguinte, The Number Of The Beast, mostraria que essa
suposição era um tanto precipitada. Talvez refletindo as críticas, Killers
estreou no décimo segundo posto da parada inglesa, bem abaixo de Iron Maiden.
(Obs. A edição brasileira do LP não incluía uma faixa, 'Twilight Zone', erro
esse infelizmente repetido quando da edição nacional do disco em CD, só em 98
o erro foi reparado com o lançamento da discografia com faixa-multimídia)
A PRIMEIRA TOUR INTERNACIONAL
Melhor ou pior do que a estréia, Killers foi o disco que serviu de cartão de
visitas para a primeira tour realmente internacional do Maiden. A Killers World
Tour levou a banda a tocar uma inacreditável maratona de 125 apresentações
através da Europa, Japão, Austrália e América do Norte. Em todos, exceto no
Estados Unidos, o Maiden seria atração principal. Começou na própria
Inglaterra no dia 17 de fevereiro e incluía uma apoteótica apresentação no
famoso Hammersmith Odeon, em 15 de março. A estafante tourné com o KISS
pareceria um passeio de carro de final de semana comparada a essa tour, mas foi
imensamente bem sucedida levando os discos do Maiden a vender pela primeira vez
mais de um milhão de cópias.
Na Inglaterra o compacto escolhido foi 'Twilight Zone' para coincidir com a tour
e lançado em Março. Tinha sido originalmente gravada como um lado b em
potencial, mas a banda gostou tanto que acabou dividindo o crédito de lado A
junto com 'Wrathchild'. O compacto chegou ao nª 31 das paradas. Um vídeo com
'Wrathchild' ao vivo no Rainbow teria ajudado as vendas, caso uma nova greve
não tivesse ocorrido na TV naquela época.
A tourné européia foi tão dura e rápida que algumas vezes a banda se
esquecia ou não sabia onde estavam. Adrian Smith se lembra de Paul Di'Anno
tentando falar com a platéia num francês de colégio uma vez: o problema era
que estavam na Itália naquele dia! Outra consequência foi a voz de Paul falhar
ao ponto da banda ter que cancelar nada menos que dez apresentações: quatro
shows finais na Alemanha e todos que deveriam dar na Escandinávia. Para não
decepcionar demais os fãs alemães, a banda decidiu dar algumas tardes de
autógrafos, onde os garotos ficaram tão entusiasmados que a polícia foi
chamada para conter quebradeiras.
MAIDEN JAPAN
A voz de Paul melhorou o suficiente para poderem encarar suas primeiras
apresentações no Japão no final de maio.
Aqui vale dizer que a conexão japonesa com o Maiden era antiga. Aconteceu por
uma dessas coincidências do destino quando um cara chamado Masa Ito ficou
sabendo da existência do conjunto durante a apresentação da banda no Music
Machine, em setembro de 1979 como número de abertura do Saxon. Ito, que estava
na Inglaterra, ficou impressionado com a performance da banda e, sendo ele uma
pessoa de grande renome na mídia japonesa, tratou de dar uma boa cobertura de
imprensa sobre o Iron, mesmo antes do primeiro LP ter sido lançado. Essas
reportagens despertaram a curiosidade dos japoneses na banda, tanta curiosidade
de fato que o LP "Iron Maiden" ganhou o disco de ouro lá e foi o
primeiro disco de ouro que a banda ganharia em sua carreira. A importante
publicação Player votou o Maiden como sendo a melhor do mundo. Só para se ter
uma idéia como tinham fãs na Terra do Sol Nascente, basta dizer que os
ingressos para os shows se esgotaram em menos de duas horas. Isso foi em
fevereiro, três meses antes da banda tocar por lá!
O grupo fez um exaustivo vôo de 27 horas até o Japão, onde chegaram, como era
de se esperar, completamente arrebentados. Mas a recepção foi tão positiva,
com fãs seguindo-os por toda parte, com muito saquê disponível para
animá-los e todos os shows totalmente lotados, que o grupo acabou passando bem
a semana que estiveram ali. Tão bem que acabou resultando num EP, ao vivo,
chamado Maiden Japan com as músicas 'Killers', 'Innocent Exile', 'Running
Free', 'Remember Tomorrow' e 'Wrathchild'. (obs. A versão inglesa e algumas
outras edições tem apenas 4 músicas, tendo 'Wrathchild' ficado de fora. No
Brasil o disco foi vendido como se fosse um LP comum e pelo mesmo preço. Pobres
de nós!) A produção desta vez ficou a cargo do próprio Maiden (mas
principalmente por Harris) e do soundman Doug Hall. O EP dá uma dimensão do
estado das cordas vocais de Paul Di'Anno e elas ficariam ainda piores ao fim da
tourné.
ENCARANDO A AMÉRICA
A banda tirou dois dias de folga antes de enfrentarem o maior dos desafios: A
América. É bom frisar que naqueles tempos pré-MTV, a promoção de um artista
dependia muito da programação de rádio. E a música poderosa do Maiden não
era o padrão FM que os DJ yankees estavam tocando na época. Apenas quatro
estações tinham tocado o primeiro LP, isto entre mais de duzentas rádios
espalhadas pelo país. Uma pena, visto o sucesso imenso que as bandas HM tiveram
na década de setenta quando Led Zeppelin era simplesmente endeusado pelos
americanos, além de Deep Purple, Black Sabbath e outros.
Talvez o imenso fracasso comercial dos Punks pouco tempo antes tenha feito os
chefões das rádios pensarem que o gosto do público jovem houvesse mudado e
que os adolescentes não gostassem mais de música pesada. Não tinha: Rush,
Heart e outras bandas pesadas continuavam a fazer sucesso, embora com muito
menos cobertura jornalística do que na década anterior. Mas, tal como na
Inglaterra, as vozes das ruas demoraram a ser ouvidas e só quando ficou
evidente para todo mundo é que acordaram as gravadoras.
O Maiden encarou o desafio como tinha feito na sua terra natal: com garra e
profissionalismo. Abriram shows para o Judas Priest, além de tocarem em dois
clubes em Chicago e Detroit e um festival em Milwaukee. Depois foram para o
Canadá, onde o primeiro LP tinha se tornado disco de ouro, o que queria dizer
que podiam ser a atração principal em lugares como Toronto (em teatros com
capacidade de 1500 pessoas), além de clubes em Montreal e Quebec.
As dificuldades eram que a banda já conseguia viajar de avião quando as
distâncias eram maiores que 300 milhas (uns 450 quilômetros), sendo que
distâncias menores que estas tinham que ser percorridas de carro alugado. O
resultado foi que nas alturas do Canadá todo mundo estava moído até os ossos,
especialmente os motoristas, que eram o tour manager Tony Wigens e o relutante
SmallWood. Eles tinham que sair de uma cidade, chegar na outra até as quatro da
tarde para aprontar tudo e ter que sair às sete da manhã. Wigens comentou:
"Rod e eu estávamos nos mantendo vivos à base de café puro."
Inevitavelmente houve incidentes. Tony estava saindo do palco uma noite, tão
cansado que não viu que saía pelo lado errado, onde não tinha escada e levou
um tombo de quase quatro metros. Foi levado às pressas ao hospital mais
próximo, coberto de hematomas e suspeita de fraturas, mas voltou à tempo para
cuidar do equipamento para o show daquela noite.
Smallwood acabou achando que aquela economia não adiantava nada e,
relutantemente, concordou em alugar um ônibus para a tour. Tocaram com
Whitesnake, Humble Pie, e seus velhos ídolos do UFO depois dos shows no
Canadá. A banda estava na Philadélfia tocando seus últimos shows com o Priest
quando receberam o convite de tocar com o UFO no Long Beach Arena, na
Califórnia, no outro lado do país. O Maiden achava estes shows tão
importantes que fretaram todo o seu equipamento para poderem chegar a tempo.
Essa atitude custou uma nota preta mas a reação da platéia fez tudo valer a
pena.
Vale dizer que o Maiden, que não aceitou a sugestão de modificarem sua
música, tornando-a mais "palatável" para tocar nas rádios,
tornou-se rapidamente num cult band underground. Killers vendeu por conta da
turné, e chegou a respeitáveis 200 mil cópias ( quatro vezes a de 'Iron
Maiden" ). Por todos os cantos encontravam garotos que os seguiam
fanáticamente, comprando ou arranjando camisetas com o logotipo e a figura de
Eddie numa velocidade de dar inveja a bandas muito mais estabelecidas.
Encontraram um garoto que tinha o logotipo tatuado nos dois braços e outro com
uma cabeça de Eddie gravada no peito. Mas o melhor de tudo foi o cara que tinha
a capa do single 'Sanctuary' (aquela do Eddie matando a Margaret Thatcher)
tatuada no braço, com os dizeres "Up The Hammers" embaixo. Harris
contou que quando lhe explicou que aquilo era um grito de guerra de um time de
futebol, ele ficou decepcionado. "Acho que ele esperava que isso fosse um
tipo de encantamento mágico ou coisa parecida."
Terminada a tour americana, o Maiden voltou à carga na Europa para honrar os
compromissos que faltaram devido aos problemas com a garganta de Paul. Tocaram
em três grande festivais ao ar livre na Alemanha durante este processo, com
Foreigner, Kansas, Blue Oyster Cult, Motorhead e outros. Logo depois
atravessaram a Cortina de Ferro pra tocar na Iugoslávia, onde o disco Killers
também tinha ganho o disco de ouro. Nada menos que 5000 garotos estavam
esperando por eles dormindo ao relento durante a noite anterior só para
garantir os lugares. Com o dinheiro conseguido por lá, a banda refez os
esquemas para se apresentarem na Escandinávia, para honrar as datas canceladas.
Seriam as últimas apresentações da banda com Paul Di'Anno.
MUDANÇAS RADICAIS
Boatos sobre os dificuldades do vocalista com o resto da banda já estavam se
espalhando desde os problemas de voz que Paul teve durante a primeira parte da
tour. Pouco tempo depois que voltaram para a Inglaterra, a Sounds publicou uma
matéria de capa: "Di'Anno fora do Maiden". Apesar de dizerem que a
separação foi "totalmente amigável" e por diferenças em torno de
música e tournés, a coisa não foi bem assim. Durante muito tempo aceitou-se
como verdadeira a tese de que Paul andava cansado das longas excursões da
banda. Essa notícia chegou a ser dada em algumas biografias que saíram até no
Brasil. O próprio Paul Di'anno a negou pouco antes de se apresentar no Brasil
em 97 além de acusar Steve Harris de ser o dono da banda, um "fuhrer"
(ditador).
O grande problema foi que Paul adorava o estilo de vida rock'n roll. E não
cuidava bem do seu instrumento: sua voz. Paul fumava, bebia demais e era
largamente indisciplinado. Com isso sua voz sofria e a banda perdia shows
importantes e levava a culpa. Os membros do Maiden sabiam se divertir, mas se
cuidavam, eram profissionais e tinham orgulho de se apresentar para a platéia
um show sensacional, dando do melhor de si. Não é pra menos que ficavam
zangados quando um deles podia estragar tudo por descuido. Paul também não
tinha a mesma ambição de vencer mundialmente como Steve e se dizia assustado
com a proporção gigantesca que o Maiden estava alcançando, sentindo que era
muito grande o peso de tanta responsabilidade.
Paul saiu da banda e foi uma grande perda, ainda que por sua própria culpa. Um
cantor carismático, com um timbre diferente e marcante. Na sua carreira
posterior, mostrou-se tão irregular e errático quanto a vida que escolheu,
alternando grandes momentos com outros absolutamente medíocres. Parece que
resolveu finalmente fazer algo direito tendo recentemente reunido sua melhor
banda, o Battlezone, e lançando em 99 um CD digno do grande cantor que é. Seu
trabalho seguinte seguiu a mesma linha, sendo gravado no Brasil com músicos
brasileiros. O resultado, Nomad, foi um disco brilhante, talvez seu melhor
trabalho pós Maiden.
UMA SUBSTITUIÇÃO FELIZ
O substituto de Paul foi, como todos sabemos, Bruce Bruce, do Samson, que tanto
havia impressionado Harris no festival de Reading um ano antes. Ao contrário do
que diz a lenda, não foram ouvidos uma série de cantores antes de chegarem a
Bruce Bruce, isto é, Bruce Dickinson. Quando Paul saiu, foi o próprio Steve
Harris, com sua habitual objetividade que o convidou para um teste. Steve pediu
que ele decorasse seis músicas. Dickinson sentiu a oportunidade e não perdeu
tempo: decorou 15. No teste tocaram dez direto e dali saíram para o bar mais
próximo para comemorar.
Em muitos aspectos Bruce Dickinson era diferente da banda: estudou em escolas
particulares e se formou na faculdade em História. Ao invés de se tornar um
chato intelectual, Bruce se mostrou perfeito em todos os sentidos para o Maiden:
profissional rigoroso, ambicioso, nem um pouco chegado à trips de superstar e
com um senso de humor à toda prova. Mais importante: cuidava muito bem das
cordas vocais. E que cordas! Dizem as lendas que ele ganhou o apelido de
"Sirene de Ataque Aéreo" quando, durante um show do Samson no Chelsea
College, ele trincou um enorme globo de vidro com um grito bem colocado.
Paul Bruce Dickinson (ele sempre preferiu usar o segundo nome, mesmo quando
criança) teve seus primeiros contatos com o showbusiness logo depois de entrar
na faculdade, através do grêmio estudantil, ajudando a organizar
apresentações de bandas por lá. Um pouco depois entrou como cantor num
conjunto local. "Eu queria tocar bateria" Contaria ele mais tarde
"Mas eu nunca tive o dinheiro para comprar uma." O destino não
deixaria Bruce cair anonimato nem nesses primeiros tempos. Logo uma
apresentação com o grupo acabou virando notícia no jornal local. Não tanto
pela música, que ainda tinham muito a aprender, mas pelo fato de terem sido
atacados em pleno palco por um cidadão que morava por perto e tinha sido
acordado por eles. "Ele acertou uma garrafa no guitarrista e chutou o kit
da bateria fora do palco. Então eu o ataquei com uma cadeira." Relembra
Bruce.
Nos tempos de faculdade, Bruce cantou em duas bandas: no Speed, que tinha
teclados e faziam um som estilo Stranglers e no Shots, que era um pouco mais
pesado e com quem excursionaria durante boa parte de 1978. Seus exames finais na
faculdade puseram uma pausa na carreira com o Shots. Pouco depois seria chamado
por Paul Samson, que o tinha visto se apresentar na Soundhouse ( sempre lá ).
Assim, depois de fazer sua última prova da faculdade na parte da manhã, Bruce
passou a tarde ensaiando com o Samson. Ele ficaria com eles durante dois anos e
meio, gravando três LPs (entre eles o bom Head On). O apelido Bruce Bruce foi
dado pelo empresário e se referia a um personagem famoso do grupo de comédias
Monty Python. Bruce até recebia seu pagamento em cheques com esse nome.
Mas logo ficou claro que as idéias musicais entre Paul e Bruce iam por linhas
divergentes. Samson seguia pelo lado do blues mais tradicional, enquanto que
Bruce era obviamente um cantor de HM. Assim, a saída não foi tão difícil no
ponto de vista artístico. Infelizmente os processos legais de separação foram
muito mais complexos: houve a quebra da gravadora do Samson, a Gem records e má
administração dos negócios da banda. Essa confusão legal impediu que Bruce
pudesse incluir alguma canção sua no seu primeiro ano no Maiden.
Assim que sua entrada na banda foi tornada oficial, eles partiram para a Itália
para fazerem quatro apresentações por lá, apenas para testar a reação da
platéia e deixar Bruce se acostumar. Todos os shows lotaram, o público ficou
doido como sempre e ninguém parecia notar alguma diferença. Londres seria um
teste mais duro. A banda tinha agendado um show no Rainbow, com o Praying Mantis
abrindo. Naturalmente, Bruce se deu muito bem. Claro, teve aqueles retrógrados
que gritaram de vez em quando um "Tragam Di'Anno de volta!", mas a
maioria reconheceu que estavam diante de um grande cantor e aprovou. Depois do
show foi dada uma festa pelo Pão-Duro Smallwood em que Paul Di'Anno esteve
presente, provando que não havia mais ressentimentos.
Dessa forma, 81 se fechou como um ano de mudanças e muita, muita batalha na
estrada. Mas foi altamente recompensador em termos de carreira: mesmo com más
críticas e muito por causa dos excelentes shows, Killers chegou ao top 10 de
vários países: Inglaterra, França, Alemanha, Japão, Suécia e Bélgica
(chegou ao número 80 nos Estados Unidos). E disco de ouro no Canadá,
Inglaterra e Japão. Na França se tornou disco de ouro duas vezes. Nada mal.
Mas o melhor ainda estava por vir...
A BESTA ESTÁ SOLTA
1982 entrou com a banda gravando seu terceiro LP na carreira e o primeiro com o
novo vocalista. E as coisas começaram de forma bem negativa nos estúdios
Battery, em fevereiro. Segundo Bruce, os equipamentos pareciam enlouquecer, com
luzes acendendo e apagando a todo o momento sem nenhuma razão aparente, com a
aparelhagem de gravação deixando de funcionar e ruídos estranhos ocorrendo
com amplificadores e instrumentos da banda. Parecia que o grupo tinha mexido com
o oculto, como numa das músicas que gravariam por lá e que daria o nome ao
novo disco: The Number Of The Beast (como boa parte das canções de Steve
Harris, baseado num filme: Omen II [no Brasil: A Profecia 2]).
Como se para confirmar tal loucura, o produtor Martin Birch teve um acidente de
trânsito quando dirigia-se para o estúdio numa noite. O motorista do outro
carro era um fanático religioso e a conta do mecânico foi 666,66 Libras!
Embora pareça uma das várias estórias para promover discos, todos os
envolvidos garantem que é verdadeira (tanto as biografias oficiais quanto o
documentário Twelve Wasted Years o mencionam como fato): "Aquilo mexeu com
a gente e o Martin ficou apavorado." Relembra Steve Harris "Ele fez
com que o pessoal arredondasse a conta para 667 libras!"
Apesar de todos esses incidentes bizarros e inexplicáveis, o álbum resultante
seria um triunfo e catapultaria definitivamente o Maiden para seu lugar como os
reis do novo Metal. Um sinal de que as coisas seriam bem maiores ficou claro
quando a banda lançou o primeiro compacto resultante das gravações com a
música 'Run To The Hills': nele estava provado que o novo cantor era
simplesmente sensacional e que possuía uma técnica e potência à altura do
muro de som que Harris & co estavam elaborando.
Como prova, o disco chegou ao número 7 nas paradas de compactos, mesmo com a
habitual recusa das rádios de tocar o estilo. Foi a primeira vez que a banda
conseguia chegar tão alto em termos de singles. O vídeo que a banda fez para
promover o disco também ajudou a torná-los mais conhecidos nos Estados Unidos,
já que agora existia a MTV e a necessidade de novos vídeos ainda fazia passar
por cima de velhos preconceitos. De qualquer forma o clip da banda mostrava bem
que a turma tinha humor, alternando cenas deles no palco e extratos de uma velha
comédia de Buster Keaton, tornando mais leve a música, cuja letra amarga
falava do massacre que os brancos perpetraram aos índios americanos.
Mas se o compacto já era muito bom, o LP resultante era simplesmente o máximo.
Quando foi lançado no dia 22 de março o disco estabeleceu novos parâmetros
para o Heavy Metal. Os críticos que temiam que a banda estivesse ficando sem
inspiração e que tinha esgotado todas as suas fichas nos dois primeiros
discos, ficaram estupefados. A nova fornada de músicas era espetacular: Não
tendo mais material antigo para utilizar, as novas composições vieram mais
maduras, mais ousadas e com uma nova perspectiva, por causa do vocal mais
técnico e poderoso de Bruce Dickinson. Da primeira faixa à última (e
principalmente a última, a sen-sa-cio-nal Hallowed Be Thy Name), ninguém tinha
dúvidas de que se tratava de um clássico absoluto, tão ou mais surpreendente
quanto ao magnífico disco de estréia. The Number Of The Beast lançaria o
grupo definitivamente no cenário mundial (leia-se, Estados Unidos).
Até a capa, uma obra-prima, contribuiu, embora não fosse específica. Derek
Riggs a tinha desenhado com intenções ao compacto Purgatory, mas a banda
gostou tanto do desenho que resolveram deixá-la para o LP. Purgatory então
recebeu um outro desenho (uma figura do diabo apodrecendo para se transformar no
Eddie) e foi o menos bem sucedido single da banda, chegando só ao número 46
das paradas, fato esse talvez explicável por já se incluir no LP Killes, que
todo fã já tinha comprado.
A crítica especializada amou The Number Of The Beast e o colocou no seu devido
lugar: um disco tão importante e renovador para os anos 80 quanto In Rock do
Deep Purple tinha sido para os anos 70 (uma comparação para grupo de HM nenhum
botar defeito). E, só para confirmar, o LP foi direto ao topo da parada
inglesa, chegando ao primeiro lugar e ficando lá por duas semanas. The Number
Of The Beast bateu Killers em vendas em todos os lugares que foi lançado.
(Obs. Curiosamente, Steve Harris não considera o disco tão bem assim. Segundo
ele mesmo as gravações foram muito corridas, não deu tempo para polir melhor
as músicas e que se arrepende de não ter substituído a faixa Gangland por
Total Eclipse - que acabou sendo o lado b do compacto Run To The Hills - e de
não ter algo melhor do que Invaders para abrir o disco. Imaginem o que seria
esse clássico se ele tivesse tido tempo para essas melhoras!)
A banda ficou sabendo das boas novas quando estavam indo da Suíça para Paris e
o ônibus tinha quebrado no meio do caminho. Como os roadies já tinham ido na
frente para montar o equipamento, o pessoal do Maiden não teve outra
alternativa a não ser sair fora e começar a empurrar. Tony Wiggins se lembra
da ocasião: "Então lá estavam aqueles caras, cujo álbum tinha chegado
ao topo das paradas da Inglaterra, empurrando o ônibus para ver se ele pegava.
E ninguém pensou duas vezes antes de fazê-lo. Não houve reclamações,
ninguém entrou numa de superstar. Depois que o ônibus voltou a funcionar todo
mundo voltou a seus lugares como se nada tivesse acontecido."
Isso aconteceu, claro, na parte européia da "Beast On The Road 1982"
, a segunda tourné mundial do Maiden, que iniciou-se em fevereiro e iria até o
dia 20 de dezembro daquele ano, cobrindo nada menos do que 18 países e um
recorde de 180 apresentações! Foi nessa época que o importante jornal New
Musical Express pediu uma entrevista. Vale dizer que o referido tablóide
detestava (e provavelmente ainda detesta) rock pesado, sendo formado
principalmente por elitistas que nunca viram o HM como algo a se considerar
seriamente.
Rod concordou, mas com a condição de toda a entrevista ser na forma de
perguntas e respostas (para não haver interpretações por parte do
entrevistador) e que estariam na primeira página. Relutantemente o jornal
aceitou e mandou um dos mais hábeis entrevistadores que possuíam, na certa
esperando encontrar pessoas que não estariam à altura das perguntas. E o cara
começou logo com as provocações perguntando sobre a "complacência moral
e intelectual" das músicas. Acontece que ele trombou de frente com
Dickinson e Harris, inteligentes e articulados, que viraram o jogo a seu favor.
Eddie apareceu assim na capa do NME e a entrevista ajudou a abrir muitas
cabeças para o novo Metal.
ANDY TAYLOR
Nessa tour Andy Taylor, sempre parceiro de Smallwood, ainda não envolvido
diretamente com o Maiden, entrou como co-empresário de forma integral. Andy e
Rod são completamente diferentes: Rod mais parece um membro da banda: cabeludo,
sempre usou jeans, tênis e camisetas da banda, além de ser famoso pelo humor.
Andy, ao contrário, sempre pareceu o típico executivo inglês: alto, gorducho,
quase totalmente careca, de óculos e sempre vestindo terno e gravata. Rod é um
fã de Heavy Metal, enquanto Andy prefere músicas mais leves para ouvir no
carro.
Curiosamente a dupla sempre se deu muito bem, unindo forças e provando que os
opostos podem agir para o bem comum (e fazer uma fortuna juntos!). Ambos
demonstram um recíproca admiração mútua e, como Rod gosta de lembrar, as
aparências enganam: "Andy é um grande cara, sempre foi. Tem uma mente
brilhante e cheia de surpresas". Andy Taylor foi ver o Maiden pela primeira
vez num show em Newcastle, 1980. Ele apareceu na apresentação de terno e foi
parado pelo porteiro, que perguntou se ele sabia quem iria se apresentar ali.
Andy Taylor respondeu que sim, que sabia. "Oh - retrucou o porteiro
"É que não vem muita gente de terno aqui." Taylor então disparou
essa: "O que demonstra mais ou menos que tipo de relação eu tenho com a
banda." Uma das primeiras providências que Taylor cuidou logo que assumiu
sua nova função foi tratar de acabar com a pirataria que se espalhava como uma
praga envolvendo todo o merchandising da banda. O Maiden tinha orgulho de vender
apenas material de alta qualidade para os fans.
A tourné européia foi um sucesso absoluto: embora fosse a primeira vez que
fossem à Espanha, isso não os impediu de conseguirem lotar as três noites
seguidas que deram em estádios de 8.000 lugares. França, Alemanha, Holanda,
Bélgica, Suíça, seguiram-se antes do grande desafio: Os Estados Unidos.
Principalmente porque a banda ganhou a fama de satanista por causa da capa e do
conteúdo da música The Number Of The Beast. A maioria dos americanos parecia
não ter prestado a mínima atenção de que somente aquela canção podia ser
considerada de teor demoníaco, e ainda assim era baseada apenas num filme.
Harris teve que gastar muita saliva em entrevistas para tentar esclarecer o
óbvio: o Maiden não tinha uma linha de pensamento fixa, nem eram adoradores do
diabo. Levou muito tempo para conseguirem mudar essa imagem errônea na terra
dos yankees.
Um segundo compacto, com a faixa-título, também chegou ao Top 20 das paradas
inglesas. O vídeo que vincularam para a música também ajudou e, pela primeira
vez, um Eddie de mais de três metros de altura fez sua primeira aparição. Uma
pena que o fizessem numa época de Margaret Thatchers e Ronald Reagans: a parte
do Eddie foi editada do vídeo, depois que cidadãos conservadores o acharam
muito assustador para aparecer na MTV.
BACK IN THE USA
O Maiden começou a parte americana da tour em Michingan, no dia 11 de maio, e
seria a primeira de 102 apresentações no continente (com apenas um intervalo
para poderem tocar no Reading Festival). The Number Of The Beast ficaria nas
paradas da Billboard durante 8 meses, atingindo o 33ª lugar e vendendo só nos
EUA 350.000 cópias (o que queria dizer que o Maiden, em termos mundiais, tinha
vendido mais do que tudo que conseguiram no ano anterior [1 milhão de discos]
em apenas 5 meses!).
Nos Estados Unidos o Maiden abriu shows do Rainbow e do 38 Special, para depois,
na condição de 'convidados especiais', dividirem o palco primeiro com os
Scorpions (com o Girlscholl na abertura) e depois com o Judas Priest. Para
variar, os shows foram excelentes, com o Maiden dando muito trabalho para as
outras bandas se equipararem ao seu espetáculo. De nota vale mencionar uma
partida de futebol, para relaxar, entre os alemães do Scorpions e os ingleses
do Iron que, depois de um jogo muito disputado, terminou num cavalheiresco 0 X
0. Em alguns shows o Maiden tocou na frente de 57.000 (Oakland) e 75.000
(Anaheim) pessoas.
No Canadá, assim como todos os outros países fora os EUA, o Maiden foi a
atração principal. Naquele país do norte o novo LP tinha ganho disco de
platina e o pessoal do grupo ficou muito feliz em saber que as rádios por ali
não tinham tanto preconceito contra Heavy Metal quanto seus vizinhos
americanos. Em Quebec tocaram em um estádio com capacidade de 9.000 e o
lotaram, apesar da população ser muito menor do que nos Estados Unidos.
De volta aos EUA, novos problemas com o velho assunto: o pessoal da God Squad
(Patrulha de Deus) no Arkansas queria que o disco tivesse tarjas avisando sobre
a natureza satânica do conteúdo. "As pessoas levaram isso tudo muito
além da conta." Reclamou Steve Harris numa entrevista "Eles acham que
se trata de um álbum sobre um tema e isso obviamente não é o caso. Há apenas
duas faixas sobre o assunto e as duas são claramente escapistas."
Na mesma entrevista ficou claro que Steve não parecia saber ou se importar com
a enorme proporção do sucesso e da fama que o Maiden havia atingido. Para ele
as coisas continuavam as mesmas e se considerava um fã de rock, mesmo tendo
mais projeção do que as bandas que o inspiraram. "É esquisito."
Admitiu Steve "Eu ainda gosto destas bandas e pagaria para vê-los tocar,
mas eu me sinto estranho em poder encontrar com eles em termos de igualdade como
um músico ao invés de fã. Acho que é por isso que o Maiden se relaciona tão
bem com os garotos. Eles devem pensar: se eles podem nós também podemos. Isso
faz o sonho ficar muito mais perto."
Harris saiu pela tangente quando perguntado porque tanta gente os compara com o
Deep Purple: "Eu não sei ao certo. Martin Birch diz que 'Innocent Exile'
têm o mesmo feeling de 'Into The Fire'. Ele trabalhou com eles, então ele deve
saber." O entrevistador foi mais longe e tocou num ponto sensível: teria
Steve copiado o estilo de palco do baixista Pete Way do UFO? "Eu não quis
copiar o Pete." Respondeu " mas ele é o único outro baixista que eu
posso me lembrar que se comporta no palco como um baixista deveria. Eu sempre
pensei que o baixista não deviam ficar ali parados tocando no fundo do palco.
Tocar baixo não faz esse efeito em mim - o baixo me faz querer pular o tempo
todo."
O Maiden só parou a sua tourné monstro para tocar no Reading Festival, na
Inglaterra, o que os fez viajar nada menos que 12000 milhas ida e volta só para
um show! mas o festival era importante, tão importante que Bruce admitiu estar
"petrificado de medo" só com a expectativa. O equipamento também
não ajudou, com nenhum dos músicos conseguindo ouvir o que estavam tocando.
Mas foi um sucesso absoluto e serviu para solidificar a fama do Maiden na sua
terra natal ainda mais.
Assim que terminaram a turné americana, que incluiu uma apresentação lotada
no Madison Square Garden (junto com o Judas Priest), os incansáveis rapazes
partiram para a Austrália. Lá foram recebidos como heróis (era a primeira
grande banda inglesa a tocar lá desde o Rainbow seis anos antes) e ganharam
disco de platina (por The Number Of The Beast, que vendeu nada menos do que 27
vezes mais do que Killers). Depois partiram para o velho conhecido Japão, mais
outro disco de ouro, antes de retornarem para casa para um merecidíssimo
descanso. Três semanas inteirinhas sem fazer nada antes de uma nova blitz de
gravações e shows.
(Obs. É justo contar aqui uma estória engraçada para se conhecer a figura
interessante do empresário Smallwood. Bruce e sua namorada Jane chamaram Rod
para uma ceia de Natal na sua nova casa. Não contente em chegar tarde,
Smallwood comeu o equivalente a três pessoas e depois tirou um baralho para um
joguinho de cartas, a dinheiro, com os convidados. Depois de limpar cada centavo
de todo mundo, levantou-se dizendo: "Com licença, tenho que ir, tenho um
compromisso" e saiu. Pela primeira vez, desde que entrou para o Maiden,
Bruce Dickinson ficou sem fala.)
PIECE OF MIND: A CONQUISTA QUE FALTAVA
1983 começou com uma má notícia para os fãs: Clive Burr saía da banda. Ele
deu declarações que estava saindo por 'razões pessoais" e que pretendia
deixar o mundo artístico permanentemente (Obs. nem tanto. No ano seguinte ele
formou o Clive Burr's Scape, que depois passou a se chamar Stratus). Tudo
indicava que sua saída foi amigável, chegando a receber o recado de "Boa
sorte, companheiro" na capa do Piece Of Mind. Mas não foi bem assim.
Somente muitos anos depois é que se soube que Clive havia tido problemas muito
parecidos com os de Paul Di'Anno. Na tour americana ele andou exagerando nas
festas e nas bebidas e, consequentemente, começou a tocar mal. Depois de
avisado várias vezes - e continuar se excedendo - a banda teve a dura tarefa de
convidá-lo a se retirar. Tão dura que seu melhor amigo na banda, Adrian Smith,
sentiu que seria o próximo e tratou de moderar nas festas. "Eu ainda me
divertia muito, mas parei de me "socializar" tanto nos dias de
apresentações. Além disso, eu estava cansado de subir no palco com dor de
cabeça". Clive Burr até hoje se recusa a falar sobre o assunto. Todos
lamentaram a perda de um músico tão talentoso, mas a banda não podia
comprometer sua carreira por causa de uma pessoa só.
Encontrar um substituto à altura não era coisa fácil (Burr chegou a ser
votado na prestigiosa Kerrang! como o terceiro maior baterista do mundo), mas o
Maiden tinha em mente um cara muito bom que tocava na banda francesa Trust. O
Trust tinha aberto vários shows do Iron Maiden e resolveram checar sobre aquele
inglês.
Para a sorte geral, Michael 'Nicko' McBrain, tinha saído pouco antes do Trust e
estava pronto para começar outra. Ele era natural de Londres, bem humorado e
tinha muita experiência, tocando bateria desde os 12 anos com inúmeras
bandinhas de colégio e algum trabalho de estúdio. Sua primeira banda
importante foi o Streetwalker, quando tinha 20 anos, antes de tocar com Pat
Travers. Foi Billy Day, do Streetwalker que criou seu apelido quando, caindo de
bêbado, errou o nome ao apresentá-lo a um chefão de uma gravadora: Neeko. O
nome pegou desde então. (seu apelido original era Nicky, desde criança, por
causa de um ursinho de estimação. Ele mudou a grafia para Nicko quando o
adotou profissionalmente).
McBrain era um músico mais técnico e com uma pegada mais leve do que Burr, mas
também tinha uma energia inesgotável. Fã assumido do Maiden e desempregado,
ele não perdeu a oportunidade quando lhe foi oferecida a vaga. Mesmo adorando
festas e sendo como ele mesmo admite "O mister excesso em qualquer
lugar", nunca deixou que isso afetasse sua performance, o que muito
surpreendeu o resto da banda através dos anos. Sua alegria contagiante e sua
técnica irrepreensível o fizeram perfeito para dar o show energético que
Steve Haris havia desejado para o Maiden. A dupla se transformou numa das
cozinhas mais imitadas do Heavy Metal.
Logo no início de janeiro a banda foi para Jersey, uma das ilhas do canal da
mancha, para ensaios e composições tendo em vista o que seria o LP Piece Of
Mind. A turma se instalou no hotel Le Chalet durante cinco semanas, onde
alugaram máquinas de vídeo games, uma mesa de sinuca, outra de tênis de mesa
e um jogo de dardos para tornar a vida tolerável naquele lugar frio e cinzento.
Steve em geral prefere trabalhar sozinho, na tranquilidade de seu quarto
(interessantemente ele costuma escrever suas músicas no baixo, daí resultando
aqueles riffs característicos). Já Dickinson e Smith costumavam escrever suas
canções na sala de ensaios, com amplificadores no talo. O Maiden sempre
escreve tudo e faz os arranjos antes de ir ao estúdio. Nenhuma de suas músicas
é feita de última hora.
Martin Birch esteve lá nos últimos dez dias para conhecer o material. Derek
Riggs também apareceu para trabalhar a arte da capa. De Jersey a turma se
mandou para Nassau, nas Bahamas, para gravarem no Compass Studios. As
gravações ocorreram de forma regular embora enfrentassem dois problemas. Um
era a constante queda de energia cada vez que chovia. Por pouco as fitas de
Piece of Mind não foram apagadas num desses blecautes. Outro era a falta de
dinheiro: a banda descobriu que lá os cartões de crédito não eram aceitos.
Era difícil obter ordens bancárias, que demoravam demais. Assim, com as
últimas cinquenta pratas que dispunham, apelaram para as lendárias habilidades
de Rod Smallwood nas cartas para conseguir alguma grana. Os membros da banda
contam que durante seis noites em seguida ele foi ao Cassino com 50 dólares e
voltava com 300! Seis noites em seguida!
O disco que sairia dessas sessões teria a capa mais elaborada de todas até
então: Um Eddie lobotomizado, mas raivoso, arrebentando a camisa de força numa
cela acolchoada. A capa abria com uma fantástica foto da banda na mesa, pronta
para o jantar (um cérebro, cru, com salada). Todos os rapazes tomando vinho,
exceto Harris, fiel à sua cervejinha.
A turma resolveu dar o troco aos fanáticos religiosos americanos mandando
mensagens "secretas": na contracapa do LP a citação de um trecho das
revelações da Bíblia está alterado, com a palavra brain (cérebro) ao invés
de pain (dor). Quase ninguém notou na época (o que prova que esse pessoal
religioso não presta a devida atenção). Outra foi gravar uma mensagem de
trás para frente (entre The Trooper e Still Life, no lado b), com esperança
que os otários religiosos perdessem tempo tentando entender o que queria dizer.
De fato, Nicko McBrain era quem falava umas bobagens concluindo com a frase:
"Don't Meddle Wid t'ings you don't understand" ( "Não mexam com
coisas que vocês não entendem" ). Steve & cia esperavam que muitos
desses caras estragassem seus toca-discos forçando-os a tocarem de trás para
frente.
Antes do lançamento do LP, marcado para maio, um compacto com a música
"Flight Of Icarus" foi lançado. Boa parte dos fãs estranhou: a
música era muito "comercial", muito parecida com várias bandas de
metal farofa, que começavam a infestar os EUA. É certo que ao vivo ela ficava
mais pesada e ganhava alguma vida extra, mas era bem mais 'soft' que todo o
material lançado antes em compacto. Foi o primeiro single deles nos Estados
Unidos e apesar de ter seu lado comercial, não tocou nas rádios, para variar.
Na Inglaterra chegou ao número 11. Talvez por causa dele, o LP entrou no
número 3 das paradas inglesas ao invés de ser um número 1.
Piece Of Mind é um excelente disco com algumas canções memoráveis: 'Where
Eagles Dare' era um épico com as guitarras propositadamente soando como
metralhadoras e, acredite se quiser, levando apenas dois takes para ficar
pronta. 'Revelations' seguia a linha de 'Children of The Dammed' e era tão boa
quanto. 'The Trooper', 'Die With Your Boots On' e 'Still Life' eram brilhantes
canções, cheias de energia e maravilhosamente executadas. Apenas 'Sun and
Steel' e 'Quest For Fire', meio fracas, não estão à altura das outras,
enquanto que 'To Tame A Land', ainda que musicalmente excelente, não conseguiu
ser muito convincente na letra (sejamos justos: como sintetizar um livro
complexo, de mais de 500 páginas, como 'Duna' numa música de pouco mais de 7
minutos?).
Ainda que não tivesse o impacto nem a musicalidade revolucionária do The
Number Of The Beast, Piece Of Mind seria o disco que abriria definitivamente as
portas do Maiden para os Estados Unidos (Talvez por isso Steve Harris viva
dizendo que prefere a ele do que The Number Of The Beast). A revista Circus e
outras publicações americanas anotaram como as músicas desse disco eram menos
"virulentas" do que as anteriores, o que provava a notável
ignorância dos críticos americanos ao material do Maiden desde o princípio.
OS EUA SE RENDEM: HEADLINERS NOS ESTADOS UNIDOS
A 'World Piece 83' Tour começou em 2 de maio na Inglaterra. No final do mesmo
mês eles começaram o que seria sua primeira tour pelos Estados Unidos e
Canadá como atrações principais. Era um passo audacioso, principalmente se
levarmos em conta que as rádios continuavam boicotando o Maiden como sempre.
Mais desafiadoramente ainda era o fato de Rod e a banda deixarem para lá
lugares menores e partirem logo para estádios. Também já levavam seu próprio
equipamento de som, o que facilitava uma qualidade mais regular nos shows.
E, como a fortuna sorri aos audazes, eles conseguiram de novo. Lugares como
Seattle, em junho (12.000 lugares), Long Beach (14.000) e San Antonio no Texas
(15.000!) tiveram lotação esgotada, provando de vez que o Metal tinha um
público muito maior do que se imaginava, e a mídia queria. Nessa primeira fase
da tour o Maiden teve como abertura o Fastway, e o Saxon como convidado
especial. Depois o Saxon saiu e Coney Hatch assumiu a abertura.
Mas a tour não foi só um sucesso em termos de estádios lotados: Piece Of Mind
entraria na parada da Billboard no dia 2 de junho na posição número 127. Em
oito semanas, subiria até chegar à 15ª posição. Lá ficaria durante durante
5 semanas chegando a subir mais um ponto, o número 14. Ganharia o disco de ouro
depois de dez semanas. O sucesso foi tão grande que trouxe até o 'The Number
Of The Beast' de volta às paradas, onde voltou no número 79 e também virou
disco de ouro. Ao final desse tour The Number Of The Beast se tornaria disco de
platina, tendo ficado nas paradas durante 43 semanas.
O RETORNO DO PODER: POWERSLAVE TRIUNFA!
O Maiden voltaria a Londres no final do ano para umas rápidas férias (e o
casamento de Steve Harris no dia 29 de dezembro) antes de encararem o habitual
estúdio para escreverem e ensaiarem as novas músicas no estúdio Le Chalet.
Depois partiram para para Nassau de novo, onde gravariam no Compass Studios e no
The Waterloo, sempre com Martin Birch produzindo.
Apesar da capa, mais 'simpática' e menos agressiva de todas até então (o
Eddie como o deus egípcio Horos não convence mesmo. Muito menos assusta), o
conteúdo era pura adrenalina. Muita gente esperava que o Maiden fosse suavizar
seu som depois de Piece Of Mind, mas não podiam estar mais enganadas. Nada de
canções 'fáceis' como 'Flight of Icarus': Powerslave era heavy metal em
estado bruto do início ao fim, sendo um bloco de sons de difícil assimilação
no início.
Músicas como '2 Minutes To Midnight', 'Aces High' e a faixa-título (realmente
impressionante) se tornariam clássicos absolutos, com a banda ainda mais
entrosada, coisa que parecia impossível. 'Rime Of The Ancient Mariner' era uma
extensão lógica das longas faixas épicas de Steve Harris, mostrando
influências do rock progressivo, que iria marcar os futuros trabalhos da banda.
Embora o restante do material não conseguisse seguir no mesmo nível (bem
mostrado na instrumental 'Losfer Words') 'Powerslave' foi para muitos o ápice
da carreira da banda, que ostentava um fôlego criativo muito acima da média de
seus contemporâneos.
Foi também o "disco da moda" nos Estados Unidos, onde a banda
consolidou de vez sua carreira. Nunca mais deixariam de ser a atração
principal, onde quer que se apresentassem. O LP tornou-se o segundo a vender
mais de um milhão de cópias por lá, atingindo o décimo segundo lugar na
parada da Billbord. Na Inglaterra só não chegou em primeiro por conta de uma
coletânea que segurou-os no segundo posto.
O disco chegou em boa hora, já que muitos críticos insistiam em dizer que o
Metal tinha se esgotado e já dera tudo que podia no início da década. Numa
época em que a guerra fria havia voltado com toda a força e o conservadorismo
da chamada 'era Reagan' imperavam, o anticonformismo e as letras críticas do
Heavy Metal não eram bem vindas de jeito nenhum. Já haviam começado as
infames campanhas pela 'moralização' das artes em geral e da música em
particular. O Iron viria provar que o Metal continuava vivo e bem. Ignorando os
conservadores e fanáticos religiosos, se lançaram à sua mais nova tour pelo
mundo.
E a 'World Slavery Tour' seria ainda mais longa que as antecedentes: 300
apresentações em 13 meses, abarcando 28 países no processo. Poucas, muito
poucas bandas tão bem sucedidas aguentariam e manteriam a qualidade de som num
período tão longo e estafante. Para a sorte dos brasileiros, o grupo concordou
em se apresentar no Rock In Rio, apesar do Brasil não estar no programa
inicial. Assim, nós sortudos tivemos a chance de ver a banda no auge, ainda que
por apenas um show.
SEM PAUSA PARA RESPIRAR
Por melhor que tenha sido a recepção do novo disco e a enorme demanda de
ingressos para ver "a última novidade" (nos Estados Unidos), esta
quase foi a tour que acabou com o Maiden. Bruce Dickinson sintetizou muito bem o
sentimento geral com uma frase: "Esta foi a nossa melhor tour e a nossa
pior tour. Quase que nós terminamos de vez."
A banda foi para a estrada levando um cenário ao mesmo tempo simples e
impressionante, que ganhou a aprovação geral da banda, pois servia para
qualquer ambiente. Os próprios membros do Maiden consideram que foi o cenário
mais bem sucedido deles até hoje e quem viu o sensacional vídeo "Live
After Death" (dirigido com rara competência por Jim Yukich) pode conferir.
Os shows foram um 'must' para o verão de 1985, onde a banda desfrutava uma fama
sem precedentes nos EUA. Todo mundo parecia querer ver a "última
moda". Powerslave tornou-se o disco que todo mundo tinha, mesmo que nunca
comprassem outro LP do Maiden, como Bruce comentou tão acertadamente. Com isso
a demanda para shows extras aumentou de forma assustadora, obrigando a banda a
aguentar um esquema ainda mais pesado do que vinham enfrentando até então.
O número de apresentações foi crescendo tanto que Bruce teve que,
literalmente, chegar até Rod e ordenar que parassem ou "eu teria pulado
fora. Eu acho que foi a primeira vez que eu realmente pensei em cair fora - e
não digo só do Iron Maiden, mas desistir até da carreira musical. No final
daquela tour eu estava me sentindo como se fosse só uma parte da maquinaria,
assim como os fios do equipamento de luz."
Adrian Smith confirma a dureza: "Parecia que ia continuar para sempre...
seis meses, tudo bem... nove meses, tudo bem. E então era estendida. (...)
Você perdia o ano inteiro, perdia contato com as pessoas... eu me lembro de
quando eu fui visitar meus pais quando voltamos para a Inglaterra e eu bati na
porta errada! Sério!"
Até mesmo os incansáveis Nicko McBrain e Steve Haris acharam que a coisa
estava fora de controle e deram um basta para Rod Smallwood que, sendo um
ex-agente, parecia achar que estava mantendo todo mundo feliz enchendo a agenda
com novos compromissos.
Da tour resultou o primeiro 'verdadeiro' álbum ao vivo do Maiden: "Live
After Death". Um impressionante álbum duplo gravado no Long Beach Arena,
durante duas noites das quatro em que tocaram por lá durante a World Slavery
tour. Ao contrário da maioria dos discos ao vivo, esse não possuía nenhuma
regravação ou melhoria feita em estúdio, como é de costume. Foi gravado
quase todo direto num único show, o que o torna ainda mais raro. "Nós
queríamos um verdadeiro disco ao vivo, porque é isso que somos, afinal de
contas. Uma banda ao vivo." Disse Steve Harris na época. Até mesmo o
vídeo foi todo filmado usando apenas dois shows, sendo que apenas umas poucas
partes do segundo foi usado na edição final, a fim de que o público tivesse
uma boa idéia do que seria uma apresentação verdadeira da banda.
O sucesso tanto do álbum (o terceiro a virar disco de ouro em seguida nos EUA)
quanto do vídeo, deu o necessário descanso para que a banda se recuperasse da
estafante maratona. Mas os efeitos dessa loucura continuariam a afetar a banda
por muito tempo ainda no futuro, atingindo principalmente Bruce Dickinson.
CAUGHT SOMEWHERE IN TIME
A pausa que deveria durar seis meses acabou sendo de apenas quatro. Logo a banda
estava preparando material para gravar seu sexto álbum de estúdio. O disco
mostraria bem a divisão em que a banda se encontrava internamente: enquanto
Steve, Adrian e Dave se atiravam de cabeça na mais avançada tecnologia das
novas guitarras sintetizadas, Bruce estava interessado em fazer algo mais
acústico. Suas composições acabaram rejeitadas pelos outros, embora neguem
que fosse pelo fato de serem acústicas. Para piorar a situação, Adrian Smith
voltou a escrever suas próprias letras durante as férias. O resultado foi que
nenhuma composição de Dickinson entrou no novo disco. Adrian também teve uma
música sua, Reach Out, ejetada do álbum por ser muito pop ("parecia Bryan
Adams" comentou Martin Birch), sendo aproveitada apenas como lado b de um
compacto.
Somewhere in Time foi o disco mais caro que a banda já tinha gravado até
então. Baixo e bateria foram gravados em Nassau, guitarras e vocais na Holanda
e a mixagem final foi feita em Nova York. Tudo feito sem pressa e com muito
cuidado, com a preciosa ajuda de Martin Birch, claro. O resultado foi um disco
espetacular, com grandes clássicos do Maiden, como Heaven Can Wait, a
faixa-título, e Wasted Years, enquanto Alexander the Great continuava a linha
de grandes épicos de Steve Harris. A levada de baixo meio funk de Stranger In A
Strange Land era outra surpresa. A capa também é uma obra-prima e revela muito
do conteúdo do disco: num cenário futurístico, bem à Blade Ru |